A coluna Voos Literários inaugura um espaço para entrevistas com a atriz e escritora Clara Corleone, que lança no dia 3 de outubro seu livro de estreia: O Homem Infelizmente Tem que Acabar – crônicas, deboches e poéticas. O bate-papo aconteceu na semana passada e durou cerca de 1 hora, em um café no Bom Fim, um dos bairros de Porto Alegre reconhecidos pela resistência cultural e centro da vida e obra de Clara Corleone, de 33 anos. 

Clara começou a escrever nas redes sociais e ganhou visibilidade (e seguidores) de forma despretensiosa. Seus textos abordam empoderamento feminino, relações amorosas e sua atribulada rotina de trabalho dividida entre a ONG Minha Porto Alegre, o estúdio Otto Desenhos Animados e a atuação como hostess no Bar Ocidente durante os finais de semana.

A seguir, um resumo da conversa, em que a Literatura e o amor pela escrita foi se mesclando a assuntos complexos e necessários como a violência contra a mulher, aceitação corporal e feminismo.

 

Ser escritora

“O que mais amo fazer é escrever. Mas não sabia como transformar meus textos postados no Facebook em um livro, de forma que fizesse sentido. Até que surgiu o convite, por parte da Editora Zouk, para que isso acontecesse. Foi um processo rápido, ao longo de alguns meses em 2019. O livro só aconteceu graças ao trabalho de edição feito pela Zouk e pela Joanna Burigo [fundadora da Casa da Mãe Joanna e mestre em Gênero, Mídia e Cultura].

Título polêmico

 “O título do livro – O Homem Infelizmente Tem que Acabar – foi uma ideia minha e o defendi apesar do receio de que pudesse afastar da leitura o público masculino. Mas acho que esse nome tem o deboche e a ironia que costumo colocar nos meus textos. Mulheres heterossexuais solteiras e casadas entendem perfeitamente ao que me refiro.” 

Inspiração

“Eu gosto de imaginar que meu livro possa ser uma porta de entrada para o feminismo. Penso naquela adolescente que foi rejeitada por um babaca e pode, a partir da leitura dos meus textos, entender que ela tem valor em si e não ficar dependendo da opinião do cara por quem ela se apaixonou e está sofrendo. Se servir para isso, eu vou ficar muito feliz.” 

Influências

Patrícia Melo, com sua linguagem verborrágica sem dúvida me influenciou. Nos diálogos e no jeito de fazer graça das pequenas coisas do cotidiano penso que tem a ver com as minhas leituras de Luis Fernando Verissimo. E Caio Fernando Abreu me inspirou e me inspira muito na escrita.”

Exposição da vida privada

“Muita gente imagina que me conhece só por ler meus textos, mas a verdade é que penso bastante antes de escrever. Tudo que escrevo aconteceu mesmo, não é ficção. Mas tenho o cuidado de não expor sem necessidade as pessoas envolvidas nas situações relatadas e também a minha vida pessoal.”

Política

“Percebo o quanto o cenário político tem afetado meus amigos. E é por isso que resolvi expor minhas angústias sobre o governo Bolsonaro nas redes sociais e nos meus textos. É uma forma de quem me lê perceber que não está sozinho.”

Feminismo

“O feminismo é uma temática presente nas minhas crônicas por estar presente na minha vida. E claro que é importante a gente falar sobre aceitação corporal e de problemas como anorexia e bulimia. Mas precisamos refletir que lutar para acabar com a violência contra a mulher é a bandeira mais importante do feminismo. E essa consciência atingí ao trabalhar na ONG Minha Porto Alegre, em que vi dados assustadores sobre violência contra a mulher, que acabaram mudando a minha percepção  sobre o que é mais relevante dentro do feminismo. [confira dados sobre feminicídio e violência contra a mulher aqui]. A proibição do aborto também é uma questão que prejudica muito mais as mulheres pobres e por isso precisamos lutar pela sua descriminalização.

Privilégios

“Sou branca, hétero e cis e é desse lugar que ocupo na sociedade que escrevo. Mas não podemos deixar de pensar no quanto a vida de outras mulheres é mais difícil. Mulheres negras e periféricas, por exemplo. Ou mulheres com deficiência física, que sofrem mais violência física do que as outras.”

Sexo

“Ainda causar espanto que mulheres escrevam sobre sexo é uma mostra do quanto o machismo ainda está presente na nossa sociedade. Homens não precisam justificar-se para abordar esse tema. Bukowski é um bom exemplo disso. Mas como diz a Clara Averbuck [escritora gaúcha radicada em São Paulo, feminista e libertária em seus livros], não faço escrita confessional porque não estou confessando algo que me arrependo. Essa ideia de escrita ‘confessional’ é um termo usado pela crítica apenas para escritoras.” 

Novos projetos literários

Meu sonho é escrever um romance que mostrasse a verdadeira história da mulher solteira, sem os estereótipos das séries de televisão e das comédias românticas de Hollywood. Mas talvez isso demore para acontecer, porque sinto que para escrever uma narrativa longa preciso estudar mais e estar preparada para esse projeto. Mas o sonho existe e espero que um dia aconteça. De repente, antes eu lance mais crônicas antes de publicar um romance.”

Confira um trecho do livro O Homem Infelizmente Tem Que Acabar, de Clara Corleone.

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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