É bom quando a gente pede algo para alguém e acaba sendo surpreendido. Foi o que aconteceu comigo quando combinei de o Vitor Diel escrever uma dica de leitura para o Voos Literários. Ele resolveu escrever sobre o livro Platero e eu, de Juan Ramón Jiménez, que eu absolutamente desconhecia.

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O poeta espanhol Juan Ramón Jiménez ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 1956 e foi influenciador  de grandes nomes da Literatura, como Garcia Lorca

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Abaixo, segue a dica de leitura do jornalista e editor da fanpage Literatura RS, destaque literário do Prêmio Açorianos de 2016. Um texto poético e sensível, combinando com a obra escolhida:

Quando falamos dos animais, falamos de nós mesmos. A relação entre essas duas espécies funciona como um espelho para os arranjos que estabelecemos com nosso psiquismo, nossa sensibilidade e nossos afetos. É em função dessa verdade, ainda um tanto opaca, que com frequência nos sentimos especialmente tocados pelas narrativas sobre os animais. Por isso, Platero e eu, de Juan Ramón Jiménez, é e sempre será uma das histórias mais delicadas e sensíveis já produzidas pela literatura espanhola.

É pelas lentes dos olhos do burro Platero que conhecemos o universo do povoado de Moguer. O personagem-narrador conduz Platero com ternura e amor por entre situações que revelam a dor, a injustiça, a alegria, a simplicidade, a malícia, a carícia, a crueldade e o lirismo que existe na vida. A ingenuidade do animal, que às vezes zurra, como zurram os burros, é também a ingenuidade do narrador, coração de poeta que sofre com a solidão e aspereza do mundo. Moguer é amarela, branca e azul, cálida e espaçosa, e está assentada no interior da Espanha do início do século XX. O vilarejo recebe de volta o narrador: o filho que retorna e visita suas memórias de infância, o túmulo do pai, a casa onde nasceu, os ciganos andarilhos, sempre com o discreto Platero ao lado.

A introdução da história já determina a doçura da narrativa:

“Platero é pequeno, peludo, suave; tão macio por fora, que parece todo de algodão, parece não ter ossos. Deixo-o solto, e ele vai para o prado, e acaricia mansamente com o focinho, mal as tocando, as florzinhas cor-de-rosa, azul-celeste e amarelo-ouro… Chamo-o docemente: ‘Platero!’, e ele vem até mim com um trotezinho alegre, como se viesse rindo, como que num desprendimento ideal. (…) É terno e mimoso como um menino, como uma menina…; mas forte e rijo por dentro, como de pedra. Quando aos domingos, passo montado nele pelas últimas ruelas da aldeia, os homens do campo, de roupa limpa e vagarosos, ficam olhando: – Ele tem aço… Tem aço. Aço e, ao mesmo tempo, prata de luar”.

A pradaria, a estrada de chão, os terraços esbranquiçados, as casas antigas, as tradições cristãs, vemos tudo pelos olhos do burrinho, que não só é amigo e companheiro, mas também cúmplice: “Trato Platero como se fosse uma criança. Se o caminho se torna escarpado e o peso é muito para ele, desço para aliviá-lo. Beijo-o, provoco, ele se irrita… Mas entende bem que gosto dele, não me guarda rancor. É tão igual a mim, tão diferente dos outros, que cheguei a acreditar que sonha meus sonhos”.

Em 136 capítulos curtos (articulados com certa independência, numa dinâmica semelhante a Vidas Secas, do brasileiro Graciliano Ramos e que também joga luzes sobre a relação homem-animal através da cadela Baleia), Platero e eu dá fôlego a reflexões sobre a solidão da existência, a inevitabilidade do fim e a importância do lirismo e da beleza na relação do sujeito com o mundo e consigo mesmo. O burrinho Platero é a lente de aumento através da qual o narrador revela-nos a realidade material; no caso, carregada de ternura, exatamente como deveriam ser todas as relações entre os homens e entre esses e os animais.

Platero e eu – edição bilíngue

Juan Ramón Jiménez

Ilustrações de Javier Zabala

280 páginas

WMF Martins Fontes

2010

A coluna Voos Literários está pedindo dicas de leituras para pessoas do meio cultural do Rio Grande do Sul. Tem mais dicas de livros bacanas aqui e aqui.

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Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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