Recentemente, umas das páginas de humor e deboche que eu mais gosto, Ajudar o Povo de Humanas a Fazer Miçanga, postou esse meme sobre Vinicius de Moraes.    

A frase, infeliz, sobre a beleza ser fundamental é do poema Receita de Mulher, publicado pelo poetinha em 1957. Para minha surpresa, vi comentários, inclusive femininos, defendendo Vinicius, dizendo que a frase estava fora de contexto, uma das maiores desculpas para justificar erros do presente e do passado. Mas vamos lá, em que contexto Vinicius de Moraes falou esse verso pavoroso? Pois foi justamente na abertura do poema: 

“As muito feias que me perdoem //  Mas beleza é fundamental // É preciso //  Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso // Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture // Em tudo isso”.

Vamos pensar junto com o poeta lá no fim da década de 1950. Ele defende que a mulher precisa ser bela, ter qualquer coisa de flor e de dança. Então, além de bonita, a mulher ideal da poética de Vinicius precisa ser delicada e graciosa. Tudo bem, Vinicius, a liberação sexual feminina ainda não era uma realidade e o feminismo engatinhava no mundo. O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, tinha sido lançado em 1949. Porém, a obra no Brasil ainda tinha pouca repercussão na época em que Vinicius ficava tentando ensinar às mulheres como ser ou se comportar.

Na Internet do século 21, algumas pessoas afirmaram que o poema em questão falava em “beleza interior”. Pois sou obrigada a discordar, não por implicância, mas porque os versos em si são bastante claros ao apontar apenas aspectos físicos femininos, como no trecho a seguir:

“Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então  // Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca // Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência. // É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos // Despontem, sobretudo a rótula no cruzar as pernas, e as pontas pélvicas // No enlaçar de uma cintura semovente. // Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras // É como um rio sem pontes. Indispensável // Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida // A mulher se alteia em cálice, e que seus seios // Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca.”

Como um todo, o poema é mesmo uma receita, com instruções para as mulheres. Porém, é uma receita bastante cruel, já que as feias que perdoem o poeta, mas beleza seria fundamental. Mesmo com a ressalva de tantas décadas que nos separam da publicação desse texto, sabemos que a ditadura da beleza segue firme e forte. O Brasil continua campeão no ranking de cirurgias plásticas e a obsessão feminina pelo corpo perfeito ainda permanece bem maior do que a masculina. 

Claro que a discussão começa com uma brincadeira virtual. Porém, julgo necessário ressaltar. Mesmo que Vinicius de Moraes estivesse lindo em qualquer foto, ele não teria o direito de julgar a aparência alheia. Mas, na década de 1950, não havia essa visão. Tanto que um dos poetas mais consagrados do país escreveu, publicou e ficou famoso e respeitado mesmo com letras de música e poemas bastante questionáveis para a nossa visão contemporânea. Sigo admirando o poetinha, ele deixou um legado inegável para a poesia e a música brasileira. Mas não dá para passar pano para esse verso. 

“Vinicius que me perdoe,

Mas respeitar a aparência de todas as mulheres é que é fundamental.”

O poema completo está disponível no site oficial do escritor.

 

 

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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