“A futilidade é uma arma essencial para a sobrevivência nestes hard times.”

A frase de Caio Fernando Abreu é um dos meus mantras atuais. Precisamos de momentos de escapismo para conseguir levar a vida nessa conjuntura sociopolítica. As notícias ruins jorram à nossa frente e contaminam nosso dia a dia e é difícil fugir e alienar-se quando estamos sempre conectados.

Para preservar a minha saúde mental, tenho criado situações de pura futilidade, sem nenhum remorso. Do ponto de vista literário, desde a campanha política de 2018 tenho me jogado na leitura de obras “menores” e experimentado até um gênero visto com desprezo pelos intelectuais: autoajuda.

Com uma ressalva. O livro pelo qual eu me apaixonei é de “anti autoajuda”. A Sutil Arte de Ligar o F*da-se, de Mark Manson, nos alerta, por exemplo, que não somos tão especiais como imaginamos. E é isso é ótimo porque nos tira uma carga de responsabilidade imposta por nós mesmos. É difícil ser genial, afinal se todos fossem excepcionais o conceito por si só perderia sentido.

Contextualizando para o nosso Brasil atual, meu capítulo preferido é Rejeição Faz Bem:

Como extensão de nossa cultura positiva/consumista, muitas pessoas foram ‘doutrinadas’ na crença de que devem tentar concordar e aceitar o máximo possível. Este é um dos pilares de muitos dos livros que pregam o pensamento positivo: abra-se para as oportunidades, aceite, diga sim a tudo e a todos, e por aí vai.”

Esse trecho me fez refletir sobre que nem sempre concordar e dizer “sim” é positivo. Vamos aceitar para sempre um emprego com chefe abusivo? Vamos rir da piada preconceituosa para evitar desconforto de quem acha que isso é humor? Vamos concordar com a opinião dos parentes que propagam ideias fascistas de higienização social e depois vão à igreja sentindo-se perfeitos cristãos?

O autor prossegue sobre o assunto nesse mesmo capítulo:

O desejo de evitar a rejeição a todo custo, de evitar o confronto e o conflito, o desejo de tentar aceitar tudo igualmente e de tornar tudo coerente e harmônico, é uma forma profunda e sutil de arrogância. Pessoas que pensam assim acham que merecem se sentir bem o tempo todo, aceitando tudo porque rejeitar algo pode causar desconforto a elas mesmas ou a outra pessoa. E como elas se recusam a rejeitar qualquer coisa, levam uma vida sem valores, egoísta e voltada para o prazer. […] A honestidade é um desejo natural da humanidade mas um de seus efeitos colaterais é nos obrigar a ouvir e dizer ‘não’. Desse modo, a rejeição aprimora nossos relacionamentos e torna a vida emocional mais saudável”.

Por isso, não dá para ser isentão nesse Brasil de ânimos tão acirrados só para ser o bonzinho da turma de amigos ou da família.  Claro que podemos escolher que batalhas valem a pena ser travadas. E em caso de verificarmos que o fascismo alheio é incorrigível, talvez o ideal seja darmos um tempo no contato com essas pessoas. 

Para ligar o f*da-se em 2019, precisamos estar de olho em nosso autocuidado e sobrevivermos com um mínimo de sanidade nesses ‘hard times’, como falava Caio Fernando Abreu.  

Foto:  Reprodução/Pinterest – Madonna, a rainha de ligar o f*da-se desde a década de 1980 

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

Comentários no Facebook