As manifestações a favor da democracia no Brasil trouxeram à tona o conceito do antifascismo. As bandeirinhas antifas tomaram conta das redes sociais e logo houve um movimento de parte da esquerda para criticar a troca de cores ou questionar se determinadas pessoas são mesmo antifascistas. Percebendo a minha falta de conhecimento teórico a respeito do assunto, fui pesquisar a literatura disponível a respeito. E o livro Antifa – O Manual Antifascista, lançado no Brasil em 2019 pela editora Autonomia Literária, me pareceu a obra ideal para quem quer obter informações confiáveis e descomplicadas sobre um tema tão atual. O autor é Mark Bray, um historiador que foca suas pesquisas na área de direitos humanos, terrorismo e radicalismo político na Europa Moderna e um dos organizadores do movimento Occupy Wall Street. 

EM BUSCA DE RESPOSTAS

De cara, já obtive resposta para a minha principal dúvida: o que nos torna antifascistas? De acordo com o autor, basta sermos contrários a ideais fascistas, como nacionalismo, supremacia branca e misoginia. Sendo assim, fica fácil flagrarmos os antifas de fachada. Quem relativiza o racismo e não enxerga o racismo estrutural, está fora. Os defensores do machismo como vitimização das mulheres, também. Xenófobos, idem.

E O SIMBOLISMO DA BANDEIRA?

Com a palavra, Mark Bray:

Alguns grupos antifas são mais marxistas, enquanto outros são mais anarquistas e antiautoritários. Nos EUA, a maioria tem sido anarquista ou antiautoritário desde o surgimento da antifa moderna sob o nome de AntiRacist Action (Ação Antirracista, ou ARA) no final dos anos oitenta. Até certo ponto, a predominância de uma facção sobre a outra pode ser percebida pelo logotipo na bandeira do grupo: se a bandeira vermelha está na frente do preto ou vice-versa (ou se ambas as bandeiras são pretas). Em outros casos, uma das duas bandeiras pode ser substituída pela bandeira de um movimento de libertação nacional ou uma bandeira negra pode ser emparelhada com uma bandeira roxa, para representar a antifa feminista, ou uma bandeira rosa para a antifa queer etc. Apesar de tais diferenças, os antifas que entrevistei concordaram que essas distinções ideológicas costumam ser incluídas em um acordo estratégico mais abrangente sobre como combater o inimigo comum.”

REALIDADE BRASILEIRA

No prefácio à edição brasileira da obra, escrito pelos pesquisadores Acácio Augusto e Matheus Marestoni, há o alerta de que o livro foi escrito refletindo a realidade norte-americana e europeia, a partir de 71 entrevistas feitas com integrantes do movimento antifascista. Porém, não há dúvidas que o assunto é pertinente para os brasileiros:

“No Brasil, por exemplo, muito tem se debatido nos últimos meses sobre Jair Bolsonaro ser ou não fascista. Todavia, a denominação é a que menos importa, pois sabemos que, no limite, o fascismo é a última razão de qualquer política de Estado. Além disso, no caso do recém-eleito presidente do Brasil, ele apenas expressa e vocaliza questões comuns que características próprias da sociedade brasileira média: a misoginia, o racismo tropical e o nacionalismo ridículo submisso à influência dos EUA nos países da América do Sul. Então, Bolsonaro é um fascista e o bolsonarismo é uma versão tropical da alt-right planetária.”  

ANTIFASCISMO COTIDIANO

Seguindo na leitura de Antifa – O Manual Antifascista, no capítulo 6 podemos ter dicas práticas de como combater o fascismo tropical, principalmente em tempos de pandemia, quando muitos têm receio de sair às ruas. Outra dúvida sanada é sobre a obrigatoriedade do enfrentamento físico com fascistas:

“A grande maioria das táticas antifascistas não envolve nenhuma violência física. Os antifascistas realizam pesquisas sobre a extrema-direita on-line, pessoalmente e, às vezes, por meio de infiltração;  empurram os meios culturais para repudiá-los, pressionam chefes para demiti-los e exigem que casas noturnas cancelem shows, conferências e reuniões;  eles organizam eventos educacionais, grupos de leitura, de treinamento, torneios esportivos para arrecadação de fundos; eles escrevem artigos, folhetos e jornais, pregam cartazes e fazem vídeos; eles apoiam refugiados e imigrantes, defendem os direitos reprodutivos e enfrentam de forma constante a brutalidade policial. 
Mas também é verdade que alguns deles quebram a cara de nazistas e não se desculpam por isso.” 

O tema do antifascismo também foi abordado em um episódio especial do podcast Bendita Sois Vós.

Imagem: Editora Autonomia Literária

 

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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