Virou lugar comum falar sobre o ódio disseminado nas redes sociais, principalmente entre pessoas com visões políticas (e de mundo) opostas. Como se a culpa fosse da tecnologia e não do momento tenso que vivemos no Brasil. Mas em meio a comentários intolerantes, trocas de ofensas e robôs com mensagens prontas, muitas vezes achamos conteúdo valioso e interessante para reflexão e aprendizado.

Se não fosse por uma postagem compartilhada por diversas pessoas na minha rede no facebook talvez eu não ficasse sabendo sobre a existência de Sophie Scholl, uma das poucas alemãs a combater ativamente o nazismo e a ser morta em função disso.

O episódio assusta pela singeleza dos atos praticados por um grupo de universitários: eles apenas distribuíram panfletos contra o governo de Hitler. A trajetória do movimento de resistência Rosa Branca é contada por Inge, irmã de Sophie e de Hans, irmão das duas que também foi executado pelo regime nazista, no livro A Rosa Branca, lançado apenas em 2014 no Brasil.

Na sexta edição dos manifestos, Sophie foi detida após atirar os panfletos de cima de um prédio da Universidade de Munique. Saiu do campus universitário presa pela Gestapo, em companhia de seu irmão. Em um julgamento-relâmpago, Sophie e os outros integrantes do Rosa Branca foram condenados à morte e guilhotinados.  

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A ousadia de Sophie custou-lhe a vida, assim como acontece com diversas mulheres ao redor do mundo ainda hoje

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E a verdade é que, em plena década de 1940, em uma sociedade entorpecida pelo totalitarismo, a maior parte dos alemães preferia mesmo não enxergar os horrores cometidos pelo nazismo. Um dos panfletos, reproduzido no livro escrito por Inge Scholl, publicado originalmente em 1952, parece-me bem atual:

“Não há nada mais indigno para um povo civilizado do que se deixar ‘governar’ sem resistência por uma corja de déspotas irresponsáveis, movida por instintos obscuros”.

Por isso, precisamos seguir na resistência. Se na época do nazismo eram necessários mimeógrafos e panfletos, hoje podemos usar a Internet com esse objetivo. Não precisamos de ódio. Precisamos ter paciência para abrir os olhos de quem prefere ver pureza e boas intenções no bolsonarismo.

Foto: Reprodução do filme Uma Mulher contra o Nazismo (de 2005)

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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