O TEXTO A SEGUIR CONTÉM SPOILERS DO LIVRO E DA SÉRIE PESSOAS NORMAIS (NORMAL PEOPLE)

O conceito de normalidade imposto pelo tal senso comum é uma das maiores falácias que enfrentamos na convivência em sociedade, mas muitos seguirão sofrendo por não atender a esse padrão. Essa é uma das abordagens possíveis a partir da leitura de Pessoas Normais (Normal People), da irlandesa Sally Rooney. O enredo mostra a história de amor nada “normal” de Connell e Marianne, da adolescência, em uma pequena cidade, ao início da vida adulta, em uma universidade, em Dublin. Os dois personagens, complexos, oscilam em uma balança de poder dentro da relação, muitas vezes sem darem-se conta do nível de codependência emocional formada a partir do que poderia ser apenas um namoro juvenil, sem consequências futuras.

OS MÉRITOS DO LIVRO

(ATENÇÃO! A PARTIR DAQUI TÊM SPOILERS EXPLÍCITOS, COM DETALHES DA NARRATIVA.)

O enredo começa com uma história que parece um clichê. O cara popular na escola, destaque nos esportes e cheio de amigos, desperta a paixão da menina desengonçada e antissocial, que é hostilizada por todos por ser esquisita e dar respostas desconcertantes em sala de aula. 

Mas não se enganem. Sally Rooney consegue construir um universo que vai muito além do que é apresentado em comédias românticas adolescentes hollywoodianas. Um dos pontos fora da curva é o fato de Connell ser filho de uma faxineira, mãe solo e amorosa, que limpa a casa da família rica de Marianne. A adolescente, mesmo sendo criada com uma vida confortável financeiramente, não é mimada no sentido estrito da palavra, já que sua mãe é distante emocionalmente, seu pai, já falecido, não era amoroso com ela, e seu irmão  é claramente abusivo. O status financeiro não é suficiente para colocar Marianne no mesmo patamar de outros alunos de sua escola, pois seu comportamento é considerado inapropriado. Já Connell, mesmo pobre, é aceito, pois é tímido e agradável com todos e se sujeita à normalidade, inclusive escondendo preferências intelectuais que poderiam chamar a atenção dos outros estudantes.

SEM CERTO OU ERRADO

É com a menina “anormal” que ele se sente à vontade para falar sobre assuntos que gosta de verdade, como literatura, e com quem desenvolve uma afinidade sexual que o surpreende. Apesar disso, não tem coragem para assumir o namoro perante os colegas e transforma o que poderia ser uma história bonita de amor e respeito em um relacionamento clandestino. 

A partir do que escrevi acima, poderíamos supor que Connell é o vilão do romance. Porém, nada é maniqueísta em Pessoas Normais. Ele é mostrado como uma uma boa pessoa que, pela pressão por adequar-se, acaba humilhando a amiga que pretendia ser sua namorada. A situação fica insustentável com a proximidade do baile da escola, quando decide levar uma das colegas populares para a festa. A partir dessa atitude, Marianne rompe o acordo entre os dois e eles perdem o contato.

O JOGO VIRA

Os dois reencontram-se algum tempo depois, na faculdade, já que vão para a mesma universidade, por influência dela. Ali, se opera a primeira virada do enredo. No novo ambiente, ter opiniões próprias e ser intelectual se transformam em um mérito. Ser meigo e esconder a própria inteligência são vistos como um comportamento estranho.

Ali, Marianne é popular e está namorando. Connell não tem amigos e sofre para se encaixar socialmente. A partir desse ponto da história, eles retomam a interação, até o final do livro. É uma relação que oscila entre a amizade e a atração física, mas sempre passando por percalços que os impedem de viver um namoro comum. 

TEMAS COMPLEXOS

Para quem ainda não leu a obra ou fez uma leitura mais distraída, recomendo prestar atenção nos diferentes assuntos abordados pela autora. Política, saúde mental, sadomasoquismo, violência doméstica e diferenças sociais são alguns dos temas que vão além da mera interação entre os protagonistas.

SÉRIE BEM-SUCEDIDA

A obra foi adaptada para a televisão em uma parceria da BBC com a plataforma de streaming Hulu, virando uma série com 12 episódios, que já alcançou sucesso mundial.  Os atores escolhidos para os papéis principais, Daisy Edgar-Jones e Paul Mescal, estão super à vontade em cena e têm uma química inegável. Muitos dos (ótimos) diálogos do livro foram transpostos praticamente na íntegra, o que pode ser explicado pelo fato de a autora ser uma das roteiristas da série. Aqui no Brasil, Normal People pode ser conferida na íntegra desde essa quinta-feira (dia 16/7), através do serviço de streaming Starzplay.

ALGUMAS RESSALVAS

No geral, gosto da sensibilidade que permeia o relacionamento entre os protagonistas e que tem destaque tanto no livro como na série. Porém, esperava mais mudanças de comportamento por parte de Marianne ao longo da história. Entendo que ela tenha passado por problemas familiares que a afetaram profundamente, fazendo com que tenha uma admiração quase infantil por Connell, mesmo quando este revela inseguranças e imperfeições comuns em qualquer ser humano. Mas ela precisar do “príncipe salvador” para se livrar do irmão abusivo me pareceu um pouco machista para uma obra lançada em 2018. Outro ponto questionável é o fato dela em nenhum momento parecer interessada em ter uma carreira ou profissão, mesmo depois de perder o apoio financeiro da família. O final do livro também demonstra uma certa apatia por parte da personagem, que ao mesmo tempo em que demonstra grandeza ao incentivar o namorado a seguir em frente com seu sonho de escritor, não parece ter grandes projetos pessoais além de prosseguir com a faculdade. Na série, uma pequena troca na frase final não deixa Marianne tão á disposição de Connell, levando a crer que a viagem de um ano que este fará pode significar um rompimento definitivo entre os dois. O final em aberto se mantém, mas com um pouco mais de “pulso firme” por parte dela. 

Apesar dessas ressalvas, é uma leitura (e releitura) que considero valer a pena e, para quem não assistiu à série, recomendo fortemente.

Imagens:  BBC e Companhia das Letras/Divulgação

 

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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