Na semana anterior à Páscoa, tive acesso por acaso ao clássico russo O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov, escrito durante o regime comunista, entre 1928 e 1940. Apesar de a obra ser mais famosa por ter influenciado a banda Rolling Stones a criar o hit Sympathy for the devil, não é sobre o diabo ou ou sua recriação literária que vou abordar nessa coluna.

No livro O Metre e Margarida, a parte que mais me chamou a atenção foram as discussões teológicas, presentes no início do enredo, a respeito das diferenças entre o Jesus histórico e o Jesus mítico. A paixão de Cristo e suas consequências são o pano de fundo da história da visita a Moscou, na década de 1920, do Diabo e de uma comitiva esquisitíssima, que inclui um gato que caminha sobre duas patas, é bebedor de vodca e apreciador de outros prazeres mundanos.

Ao apresentar uma visão de Cristo diferente da exposta nos evangelhos, Bulgákov é duplamente subversivo.

Foi revolucionário ao ir contra o regime comunista, ao abordar um tema religioso em um Estado obrigatoriamente ateu. E também subverteu a ordem ao contrariar a versão oficial da Igreja,  criando uma versão de Jesus como um “filósofo vadio”, de origem síria, e não necessariamente um Messias.

No trecho abaixo, há o relato feito por Woland (ou o Demônio) sobre um suposto diálogo entre Pôncio Pilatos e Yeshua HaNotzri (ou Jesus Cristo). Pilatos pergunta sobre a relação de Ha-Notzri com Judas, que responde:

— Pediu-me que expressasse a minha opinião sobre o poder do Estado. Ele estava extremamente interessado por essa questão.

— E o que foi que você disse? — perguntou Pilatos. — Ou você vai responder que esqueceu o que disse? — Já havia desespero em seu tom.

— Entre outras coisas, eu disse — contava o prisioneiro — que qualquer poder é uma violência contra as pessoas e que chegará o tempo em que não haverá mais o poder nem dos Césares, nem qualquer outro poder. O homem passará para o reino da verdade e da justiça, onde não haverá necessidade de poder algum.

— Prossiga!

— Não houve mais nada — disse o prisioneiro. — Depois uns homens entraram correndo e começaram a me amarrar e me levaram para a prisão.”

O livro foi censurado durante o regime soviético e foi lançado na íntegra apenas em 1973.  Atualmente, em uma conjuntura em que as mensagens de Cristo são tão deturpadas por líderes religiosos cheio de ganância e por políticos defensores de armas e da pena de morte, há realmente dúvidas de que Jesus foi um preso político por se insurgir contra o sistema político de sua época?

Como pessoas a favor da violência institucional contra criminosos podem reverenciar a memória e a palavra de alguém que foi morto pelo Estado como bandido e submetido à tortura e condenado à morte?

Bulgákov, na década de 1920, já apontava a culpa de Pôncio Pilatos por sua covardia e omissão. Até quando seremos omissos em relação à Justiça seletiva e a punição efetiva apenas de condenados pobres e, em sua maioria, negros?

Imagem: Grafitti Friday/Reprodução

 

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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