A retomada do controle do grupo extremista Talibã no Afeganistão deixou em desespero a população, em especial as mulheres. Ironicamente, líderes do grupo extremista declararam estar surpresos que as pessoas tenham medo do Talibã. Além disso, garantem que as mulheres “não serão vítimas” do novo sistema.

Enquanto isso, no Brasil, a repercussão dos extremos ideológicos foi simplesmente bizarra. De um lado, bolsonaristas trumpistas tentavam colocar na conta do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, a culpa pela ascensão do Talibã. Do outro, integrantes do Partido da Causa Operária (PCO) comemoravam o fim do imperialismo norte-americano em território afegão. Duas visões distorcidas da realidade, que em nada contribuem para chegar o que realmente interessa a quem tem preocupações humanitárias. Afinal, é evidente a ameaça aos direitos humanos em um país historicamente marcado por apedrejamentos, amputações e execuções públicas de mulheres e pessoas LGBT.

Sugestões de leitura

Sendo assim, nada mais natural o ceticismo por parte da população do Afeganistão contrária ao Talibã pelo discurso moderado e as promessas de uma sociedade sem violência de gênero. Para nós, ocidentais, cabe estudar e analisar com profundidade e empatia as questões do Oriente Médio. Por isso, selecionei dois livros com enfoque na questão feminina.

O segredo do meu turbante, de Agnès Rotger e Nadia Ghulam

A obra relata a história real de Nadia Ghulam, uma afegã que precisou assumir a identidade do irmão falecido para poder sustentar a família. Ao fazer isso, ela subverte as leis do Talibã, que proíbem mulheres de estudar e trabalhar. O livro foi lançado no Brasil em 2020 e retrata a infância de Nadia, que aos 21 anos conseguiu imigrar para a Espanha.

As meninas ocultas de Cabul: Em busca de uma resistência secreta no Afeganistão, de Jenny Nordberg

Imaginem um país onde ser mulher é tão difícil que as famílias preferem esconder o gênero de suas filhas. Pois foi essa prática que a repórter Jenny Nordberg investigou durante 5 anos. Apesar do Talibã ter saído anteriormente do poder em 2001, os resquícios fundamentalistas ainda existiam na sociedade afegã. Com a nova ascensão dos talibãs o risco às mulheres volta a ser iminente.

Um alerta final

Aqui, do nosso Brasil democrático porém com figuras conservadoras e misóginas no governo, só temos a lamentar o ocorrido no Afeganistão. E destacar uma triste porém verdadeira frase da filósofa e escritora Simone de Beauvoir: 

“Basta uma crise política, econômica e religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados.”

Imagem: Joel Heard/ Unsplash

 

 

Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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