Um dos livros mais sensíveis que já li sobre maternidade é o depoimento dado à jornalista Regina Echeverria por Lucinha Araujo, mãe do cantor e compositor Cazuza. Só as mães são felizes, título de uma das canções mais viscerais do artista também dá nome a essa autobiografia pungente e sincera. Os capítulos têm epígrafes do cantor, como essa do prefácio:

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“Mãe, aconteça o que acontecer,
eu vou estar sempre junto de você “
Cazuza

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O que as mães fazem quando perdem seus filhos? No caso de Lucinha, ela encontrou forças para seguir em frente. O livro foi uma de suas formas de expressar seu amor infinito pelo filho e também uma forma de desvendar sua própria trajetória.

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“Nos 32 anos de vida de Cazuza, nosso relacionamento atravessou o tempo sempre no fio da navalha. Foi intenso enquanto ele era criança, intensíssimo na adolescência e transcendental na idade adulta. Tive, nos três anos e quatro meses de doença de meu filho, inúmeras oportunidades de pensar e repensar tudo o que vivemos juntos. Nos devaneios de meu pensamento, buscava em mim a explicação para seu comportamento, fosse ele alegre ou triste, expansivo ou retraído. E percebi que era preciso entender primeiro a minha história, antes de compreender a dele.”

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E Lucinha conta as histórias de família, o seu ponto de vista sobre a trajetória meteórica e genial do filho e também como lidou com o luto. A Fundação Viva Cazuza, ainda em atividade, que dá assistência a crianças e adolescentes de baixa renda e portadores do vírus HIV é a prova concreta de que a perda de alguém querido pode ser transformada em algo benéfico.

Lucinha, para mim, é um exemplo de mãe que preferiu doar seu amor aos outros, sem deixar de cultuar a memória de seu filho amado. Afinal, de acordo com o poeta, só as mães são felizes. E Lucinha seguirá mãe, mesmo sem receber um abraço especial no próximo domingo.

Flávia Cunha
Author

Jornalista, formada pela Famecos (PUCRS), e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Apaixonada pela obra de Caio Fernando Abreu, uniu dois interesses e analisou o trabalho do escritor gaúcho como jornalista. Entre suas preferências literárias também estão, entre outros, García Márquez, Ernest Hemingway, Érico Veríssimo, Carol Bensimon e Daniel Galera. Não necessariamente nessa ordem. É fissurada por café e rock n’roll.

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