* Este é o segundo de uma série de três textos da coluna Voos Literários que abordarão a importância da campanha Setembro Amarelo, de prevenção ao suicídio. O primeiro texto pode ser conferido aqui
“Não acredito que já fui o cara que talhou um sorriso no pulso porque não conseguia encontrar a felicidade, o cara que pensou que a encontraria na morte. Independente do que tenha levado meu pai a se matar […] preciso seguir em frente com as pessoas que não buscam saídas fáceis, que me amam o bastante para permanecerem vivas, mesmo quando a vida é horrível. Corro o dedo sobre a cicatriz sorridente, da esquerda para a direita, depois da direita para a esquerda, feliz em tê-la como um lembrete para nunca mais ser tão otário.” 
TENTATIVA DE SUICÍDIO 

O trecho acima é do livro Lembra aquela vez, de autoria do escritor norte-americano Adam Silvera. A obra, destinada ao público jovem, aborda uma temática urgente e altamente sensível: o que leva um adolescente a tentar se matar? O enredo não entrega de cara o motivo, além do fato de sabermos que o pai do protagonista cometeu suicídio e, aparentemente, o jovem sentiu-se culpado por algum motivo.

PRECONCEITO

A reviravolta na história é o fato de o personagem ser gay e não ter aceitação paterna, o que o leva a buscar um padrão de “normalidade” depois da morte do pai. O livro, apesar de ter recursos fantasiosos, como um tratamento que apaga memórias (como no filme Brilho eterno de uma mente sem lembranças), retrata uma dura realidade.

IDEAÇÕES SUICIDAS

Especialistas alertam que pessoas LGBTQIA pensam mais em acabar com a própria vida do que os heterossexuais e cisgêneros. Isso porque há muito mais tensão devido à possibilidade de não aceitação, que pode transformar-se em um estresse crônico. Engana-se quem pensa que “ficar no armário” e agradar conservadores resolveria a questão. Tanto tentar esconder-se quanto ter coragem de expor-se em uma sociedade infestada pelo preconceito pode gerar uma sobrecarga mental, levando à depressão e ansiedade, aumentando as chances de chegar-se a uma atitude extrema, levada pelo desespero.

O QUE FAZER PARA MUDAR ESSE CENÁRIO?

A situação pode ser revertida com acolhimento e compreensão. Pesquisas relevam que a taxa de suicídio entre adolescentes LGBTQIA diminuí drasticamente quando a convivência em família e no ambiente escolar é permeada por respeito.  Por isso, é necessário falarmos sobre o risco de suicídio entre jovens, especialmente LGBT+, e a responsabilidade dos adultos nesse triste fato.  Preconceito pode mesmo matar! 

Se, por algum motivo, você sentiu-se desconfortável ao ler sobre esse assunto, ligue para o CVV, que atende 24h pelo número 188. Voluntários treinados podem te ajudar a lidar com essa situação difícil.

Imagem: Pixabay/Reprodução

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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