Esse texto compõe uma série especial da coluna Voos Literários a respeito da prevenção ao suicídio, dentro da campanha Setembro Amarelo. O primeiro post trouxe um texto do autor Caio Fernando Abreu abordando o assunto. O segundo texto alertou sobre o risco maior de suicídio entre jovens LGTBQIA+.

Considero como raras as abordagens pela grande mídia do quanto o capitalismo e sua lógica perversa afetam a saúde mental de trabalhadores. Não recordo de nenhuma matéria na TV mostrando o suicídio tendo como gatilho a falta de dinheiro para pagar itens básicos, como alimentação e moradia. Por outro lado, são inúmeras as reportagens com a exaltação de exemplos isolados de “superação” e “reinvenção” como forma de sair da miséria. O desemprego é mascarado por meio do crescimento do empreendedorismo, ainda que improvisado. Vender garrafinhas de água na rua não é bico, é negócio. Seguindo esse raciocínio, quem estiver desempregado e deprimido é apenas por culpa individual. O sistema jamais é responsabilizado.

SAÚDE MENTAL X TRABALHO 

A ironia é que a pressão e o excesso de cobrança por resultados, comuns em grandes empresas de diferentes áreas, são fatores que podem levar funcionários a desenvolver transtornos mentais. Debilitada mentalmente, muitas vezes a pessoa fica impossibilitada de trabalhar, o que é visto com maus olhos por empregadores e às vezes até por colegas.

PANDEMIA PIORA (O QUE JÁ ERA RUIM)

Junto a essas características desanimadoras do mercado de trabalho, soma-se a pandemia e a consequente alta do desemprego. Estudo da Organização Internacional do Trabalho  (OIT) alerta para o aumento de suicídios em função da covid-19.  A partir desse dado, podemos inferir que no Brasil a situação é ainda mais alarmante, devido ao esfacelamento dos direitos trabalhistas nos últimos anos. Desempregados, trabalhadores informais e pequenos empreendedores ficam à mercê do governo, que cortou pela metade o valor de um auxílio emergencial necessário para o momento atual. Enquanto tira a subsistência dos mais desassistidos, segue apoiando grandes empresários, mantendo a perversa lógica capitalista. 

Por isso, o Setembro Amarelo é especialmente importante, em uma conjuntura tão propensa a gatilhos de suicídios. 

INFORMAR-SE É IMPORTANTE

Para quem está  fortalecido emocionalmente, o acesso à informação a respeito de saúde mental é importante. Recentemente, o Vós fez uma reportagem especial sobre a epidemia da ansiedade que vale a pena ser conferida. A relação entre suicídio e capitalismo já é analisada há bastante tempo pela Sociologia, como enfatiza a cientista social, doutora em Sociologia e professora da Universidade de Caxias do Sul, Aline Passuelo de Oliveira. Ela indica o clássico O suicídio, de Émile Durkheim, como uma obra fundamental para uma análise por esse viés  “Durkheim traz o conceito de suicídio anômico, que é quando há uma grande desestruturação social.  Muitos casos desse tipo de suicídio aconteceram durante a crise de 1929, com a quebra da bolsa de Nova York, quando muitas famílias de classe média ficaram abaixo da linha da pobreza. Muitas pessoas se mataram nessa época por não ver esperança na vida naquela sociedade”, analisa.

EXÉRCITO DE RESERVA

A socióloga destaca que o livro Vidas Desperdiçadas, de Zygmunt Bauman, é uma boa opção de leitura para tentar entender o momento atual. “Nessa obra, Bauman traz a ideia das vidas redundantes, que podem ser comparadas ao conceito marxista de exército industrial de reserva, referindo-se ao desemprego de uma forma estrutural. O sistema capitalista afeta a saúde mental dos indivíduos, provocando um exaustão físico e mental e pode fazer com que, infelizmente, muitas pessoas acabem tomando atitudes extremas como a de tirar a própria vida”, lamenta.

É PRECISO TER CUIDADO

Foi justamente para trazer à tona um assunto tão delicado que a campanha Setembro Amarelo foi criada. Precisamos falar a respeito desse tema, já que uma das formas de prevenção ao suicídio é poder conversar a respeito de ideações de morte com pessoas de confiança. Se for você a pessoa precisando de ajuda, procure auxílio, de preferência com um profissional especializado. Em muitas capitais brasileiras, estão sendo oferecidos serviços online gratuitos com profissionais habilitados durante esse período de pandemia. Pesquise a respeito e não fique sozinho nessa batalha.  Outra opção é o CVV, que atende 24h pelo número 188, com voluntários treinados. 

MAIS INDICAÇÕES DE LEITURA
Se o seu desejo é ter informações confiáveis sobre depressão e saúde mental

O demônio do meio-dia, de Andrew Solomon

Trecho selecionado:

“A depressão existe […] tanto como um fenômeno pessoal quanto social. Para tratar a depressão é preciso entender a experiência de um colapso mental, o modo de ação dos medicamentos e as formas mais comuns de terapia falada (psicanalítica, interpessoal e cognitiva). […] Um tratamento inteligente requer um exame atento de populações específicas: a depressão tem variações significativas entre crianças, idosos e cada um dos gêneros. Os dependentes químicos formam uma grande subcategoria própria. O suicídio, em suas muitas formas, é uma complicação da depressão. É fundamental entender como a depressão pode ser fatal.”

Leitura recomendada pela psicóloga Daniela Zanetti

Se você quer saber o que o capitalismo atual nos permite inferir sobre o futuro

Capitalismo sem rivais: o futuro do sistema que domina o mundo, de Branko Milanovic

Trecho selecionado:

“Ao longo da história, desde que se tem conhecimento, as comunidades sempre se diferenciaram em relação à remuneração e às oportunidades que ofereciam a seus cidadãos. Roma e Alexandria, por exemplo, viviam cheias de não nativos que haviam se mudado para lá em busca de empregos mais bem remunerados e melhores perspectivas de mobilidade ascendente. No entanto, a diferença entre sociedades ricas e sociedades pobres nunca foi tão grande como hoje.”

Indicação de Tércio Saccol, jornalista, professor universitário e integrante do Vós

Por fim, é importante destacar que o assunto não pode estar restrito apenas durante os dias da campanha Setembro Amarelo. O tema precisa ser tratado durante os 12 meses do ano.

Todas as vidas importam!

Imagem:  Grae Dickason/Pixabay

 

 

 

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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