Uma das minhas tirinhas favoritas é a da personagem Mafalda, criada pelo argentino Quino e publicada originalmente entre os anos de 1964 e 1973. A fanpage da personagem no Facebook conta com quase 7 milhões de curtidas, um número respeitável em se tratando de um conteúdo altamente reflexivo. Mafalda, a menina com uma visão de mundo questionadora, que odeia sopa e ama os Beatles, encanta principalmente a leitores da América Latina e Europa.

Lá por 2015, ganhou uma exposição em São Paulo que teve milhares de visitantes. E qual será a razão da continuidade de seu sucesso durante tanto tempo? Arrisco dizer que seja o fato de Mafalda dar voz a angústias infelizmente ainda presentes nos dias atuais, apesar de suas histórias passarem-se na década de 1960. Para mim, uma das frases mais marcantes da personagem é “Essa é a borracha de apagar ideologias”, ao referir-se ao cassetete de um policial. Provavelmente, é o que ainda pensam muitos dos jovens que foram às ruas em protestos e sofreram repressão da polícia, em diferentes estados brasileiros.

Outros integrantes do universo criado por Quino que me chamam especialmente a atenção é a tartaruguinha Burocracia, um símbolo do que há de pior no poder público e suas lentas engrenagens, e a pequena Liberdade, bem menor que o restante dos personagens.

No contexto brasileiro, segue muito atual a tirinha As Cobras, de Luis Fernando Verissimo, apesar do escritor ter parado com a sua produção no já distante ano de 1997, após sua criação na época da ditadura militar no Brasil. Além da dupla de cobrinhas do título, impagáveis em suas reflexões marcadas pela fina ironia de Verissimo contra o poder estabelecido, o personagem Queromeu, o corrupião corrupto, é  a prova de que a corrupção brasileira está longe de ser uma novidade.

Para quem ficou nostálgico, em 2010 foi lançado pela editora Objetiva o livro As Cobras – A Antologia Definitiva, ainda disponível em formato digital nos sites das principais livrarias. A versão impressa dá para conseguir nos sebos online.

(Dedico esse texto ao meu saudoso pai, que me ensinou a ler nas entrelinhas e levar a sério – sem perder o senso de humor – o conteúdo de HQs e cartuns. E agradeço a consultoria do jornalista e amigo geek Eduardo da Camino.)

Para ir além:

Mafalda – Todas as Tiras (edição comemorativa dos 50 anos da personagem) – Martins Editora

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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