Prosseguindo na homenagem ao humorista Paulo Gustavo, que dizia que “rir é um ato de resistência”, hoje abordaremos o humor político da Era Vargas até os dias atuais. Nesse sentido, é bom esclarecer que é completamente de gosto pessoal esta seleção de três profissionais para destacar em um período cronológico tão vasto. Porém, encontro nessa escolha pelo menos um fator em comum: a subversão. Isso, claro, no melhor sentido deste termo, pois são pessoas que não se deixaram submeter à normas e regras de autoridades com perfis ditatoriais.

Um humorista contra Vargas

Dentro da História do Brasil,  sempre é importante lembrar que não somente de fardas e hierarquias militares se fizeram ditaduras. Entre 1930 e 1945, o civil Getúlio Vargas manteve-se no poder de forma autoritária. Nesse período, um de seus grandes opositores foi um humorista que resolveu se autodenominar nobre. O Barão de Itararé, um dos heterônimos do jornalista e escritor Apparício Torelly (1895-1971), era um aberto opositor do governo Vargas. Pelas suas atividades na imprensa, chegou a ser preso em 1932 e 1935. 

No jornal A Manha, um semanário carioca de sátira política, costumava se referir ao ditador como G. Túlio Vargas, criando histórias fictícias e cheias de ironia a respeito deste personagem. Um exemplo está na imagem ao lado, da capa de 9 de março de 1933, retirada da dissertação de mestrado Um nobre bufão no reino da grande imprensa, de autoria de Rodrigo Jacobus. 

Além de sua postura crítica perante a ditadura de Vargas, Apparício Torelly também promoveu campanhas antifascistas no periódico, mostrando que o humor político de qualidade sabe muito bem de qual lado do espectro político deve estar posicionado, independente do período histórico.  Após o fim da ditadura de Vargas e a posterior anistia política, que o beneficiou, comentou:

“A anistia é um ato pelo qual os governos resolvem perdoar generosamente as injustiças e os crimes que eles mesmos cometeram.”
O humor político no combate à ditadura

Dentre todos os humoristas contrários à ditadura militar brasileira, escolhi o cartunista e escritor Henfil (1944-1988).  Começando a atuar profissionalmente em 1964, Henrique de Souza Filho ficou conhecido como um dos maiores inimigos do regime militar. Entre 1969 e 1970, essa posição fica mais evidente, em suas contribuições para O Pasquim e a revista Fradim.  Um exemplo do humor deste cartunista genial está na tirinha ao lado. Os personagens são crianças contando a profissão paterna, até chegarmos no último relato do primeiro quadrinho. Ali, a criança fala que seu pai trabalha como censor. A reação infantil de medo diz muito sobre o período de torturas e perseguições a artistas e jornalistas ocorridas naquela época.

Ainda muito lembrado nos dias atuais,  um dos trabalhos de Henfil que teve releituras realizadas recentemente é a série de cartuns que ficou conhecida como O Cemitério dos Mortos Vivos. Nestes quadrinhos, havia o enterro simbólico de personalidades consideradas por Henfil como apoiadoras da ditadura. 

Para quem quiser saber mais sobre o pensamento deste cartunista, em 1984, ele concedeu uma entrevista que virou o livro Como se faz humor político, relançado pela editora Kuarup. 

Rir é um ato de resistência (ainda hoje)

Não é à toa que destaco a cartunista Laerte Coutinho como representante da oposição ao governo Bolsonaro. Além de ser uma das quadrinistas mais reconhecidas em atividade no Brasil, seu trabalho é claramente político. Para completar, contribuiu, com material inédito, para a exposição Orgulho e Resistências, um recorte sobre a luta LGBT durante a ditadura militar. É sempre relevante enfatizar que, nessa tentativa atual de controle conservador por parte de uma figura autoritária – ainda que eleita por via democrática -, há uma perseguição à diversidade sexual e de gênero. Por isso, o engajamento da cartunista Laerte à luta LGBTQIA+ também é um ato politico de resistência nos tempos cinzentos no quais vivemos. 

 Para quem quiser conferir uma coletânea inédita do trabalho da cartunista, Manual do Minotauro está em pré-venda

O humor nos permite prosseguir

Em meio à uma crise política e sanitária sem precedentes, precisamos encontrar forças para continuar na luta, cada um à sua maneira. Outro humorista que recomendo é José Simão, que costumava dizer que o Brasil era o país da piada pronta. Recentemente, em sua conta no Twitter,  escreveu que “o Brasil virou o país da mentira pronta”.

É rir para não chorar.  De raiva.

Imagens: Reproduções/Internet

 

 

 

 

 

 

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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