O humorista Paulo Gustavo, recentemente falecido, disse em uma das suas últimas participações na televisão que “rir é um ato de resistência”. E como estamos precisando do riso no Brasil da pandemia, já que enfrentamos o luto coletivo e crescente das vítimas do coronavírus enquanto assistimos à CPI da Covid, que mostra a incompetência criminosa de um governo pouco preocupado com a vida da população. 

Junto às vítimas da pandemia, ainda precisamos lidar com perdas de personalidades relevantes no meio cultural, como a atriz Eva Wilma. Ela faleceu em decorrência de um câncer, mas nossas mentes cansadas da morte contabilizam tudo junto., em uma percepção generalizada de que 2021 é um ano muito desafiador para quem tem dentro si sensibilidade e humanidade.  

Neste contexto desolador, talvez pareça mau gosto falar em riso e humor. Porém, como bem lembrou Paulo Gustavo, rir é um ato de resistência, além de ser necessário para a nossa saúde mental. Sendo assim, é bom enfatizar o quanto o humor pode ser transgressor e incomodar quem está no poder. Afinal, quem já não viu bolsonaristas revoltados com alguma piada envolvendo seu “mito’? Historicamente, o recurso de usar o humor como uma forma de contestação política está presente no Brasil desde antes de o país ser uma república.

A resistência abolicionista

É o caso do trabalho de Angelo Agostini (1843-1910), considerado um dos precursores do humor político no país ainda no final do século XIX, Este italiano radicado em São Paulo e depois no Rio de Janeiro começou a atuar na imprensa brasileira em 1864. Era  um profissional bastante completo, sendo caricaturista e um dos inventores das histórias em quadrinhos, ao mesmo tempo em que era repórter e editor. Aliado a isso, foi militante político e um grande crítico do império e da escravidão.

Um exemplo de desenho de Agostini está ao lado, “A grande degringolada”, foi publicado na Revista Illustrada, do Rio, em 1885. Na legenda, um alerta: “Quando o país se resolver a quebrar os ferros e gritar liberdade!”. A caricatura é um apoio explícito à necessária revolta de negros e indígenas ao regime político opressor daquele época.  Para quem quiser saber mais detalhes da vida e obra desse pioneiro da caricatura no Brasil, a sugestão é o livro Poeta do lápis: sátira e política na trajetória de Angelo Agostini no Brasil Imperial (1864 0 1888), de Marcelo Balaban.

A primeira mulher caricaturista

No início do Brasil República, uma mulher chamava a atenção por seu jeito controverso para seu tempo. Dentre suas ousadias, estava a de criar caricaturas e conseguir com que fossem publicadas no Brasil e Europa. Nair de Teffé (1886 – 1981), filha do famoso Barão de Teffé, é tida por muitos historiadores como a primeira mulher caricaturista do mundo. Assinando seus desenhos como Rian, seu nome ao contrário, teve seus trabalhos incluídos em revistas como O Malho, Fon-Fon, Le Rire e Excelsior.

Entrou de vez para o mundo da política ao casar com o então presidente Hermes da Fonseca, em 1913. O casamento não a impediu de seguir com suas caricaturas. Seus desenhos provocavam o pavor das senhoras da alta sociedade, que temiam o traço humorístico e satírico empregado por Nair. Dentre os políticos retratados pela caricaturista, estão Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, Fidel Castro e Ruy Barbosa. Este último foi um declarado inimigo de Nair, um conservador que achava desprezível uma primeira-dama que tocava, ao violão, músicas de Chiquinha Gonzaga no Palácio do Catete. Os interessados em conhecer melhor a trajetória dessa mulher incrível podem ler a obra Nair de Teffé: Artista do Lápis e do Riso.  de Maria de Fátima Hanaque Campos. 

No próximo post, o humor político que criticou a Era Vargas, a ditadura militar e que prossegue no século 21.

Imagem:  Angelo Agostini – A Pátria repele os escravocratas/ Revista Ilustrada

Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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