Estamos vivendo tempos estranhos no Brasil (e também em outros lugares do mundo), isso todos sabemos. Nesse contexto, é bom recorrermos a um clássico literário sobre política e poder. O romance satírico A Revolução dos Bichos, de George Orwell, é uma fábula que aborda uma verdadeira rebelião dos animais de uma fazenda contra seus donos.  O que poderia ser uma história com final feliz (“e os bichinhos viveram em harmonia para sempre”) degenera para uma tirania por parte de uma das espécies, que resolve agir como se fosse mais especial que as outras.

Sabemos que Orwell, o mesmo autor de 1984 – livro que comentei nesse post aqui – escreveu Animal Farm pensando especificamente em criticar o regime comunista da União Soviética que, para ele, era a degeneração do socialismo real, no qual ele acreditava. Porém, o que torna A Revolução dos Bichos um livro universal e atemporal é tratar de manipulações que, infelizmente, acabam ocorrendo em qualquer época e sistema político.

Na história, as ovelhas são retratadas como os animais com menos capacidade intelectual e, por isso, são sempre mostradas como as primeiras a concordarem com as mudanças impostas nas propostas de governar a granja, sem nem ao menos darem-se conta do conteúdo das modificações. Apenas são levadas a concordarem, no melhor estilo maria-vai-com-as-outras. (Como muitos internautas e eleitores que vemos por aí, no mundo real.)

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Um dos exemplos de manipulação mostradas na história são os mandamentos dos bichos, que, originalmente, eram 7

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  1. 1. qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo
  2. 2. qualquer coisa que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo
  3. 3. nenhum animal usará roupas
  4. 4. nenhum animal dormirá em cama
  5. 5. nenhum animal beberá álcool
  6. 6. nenhum animal matará outro animal
  7. 7. todos os animais são iguais

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Ao longo da história, são modificados

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  1. 4. nenhum animal dormirá em cama com lençol
  2. 5. nenhum animal beberá álcool em excesso
  3. 6. nenhum animal matará outro animal sem justo motivo

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Com a opressão sendo institucionalizada na fazenda, resta apenas um mandamento:

Todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais que os outros.

Para quem interessou-se por saber mais detalhes e curiosidades sobre esse clássico literário, publicado pela primeira vez em 1945, pode dar uma conferida nessa matéria da revista Galileu. E, nesse link aqui, é possível conferir, na íntegra, uma animação baseada no livro e datada de 1954, além de um filme para a TV lançado em 1999.

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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