Um protesto com adesão popular ocorrido no início do século 20 contra uma decisão presidencial entrou em destaque nos noticiários brasileiros da atualidade. Trata-se da Revolta da Vacina, lembrada pelo filho 03 de Jair Bolsonaro, ao retuitar um polêmico post do governo federal com a garantia de que a vacinação contra o coronavírus no Brasil, quando for possível, não será obrigatória.

Argumenta Eduardo Bolsonaro:

“Lembrou-me a Revolta da Vacina (contra varíola) em 1904 no Rio de Janeiro do prefeito Pereira Passos. Toma a vacina quem quiser. Isso é liberdade. Não é o papai Estado que vai te impor decisões sobre sua vida (ao menos o Estado federal)”,

OSWALDO CRUZ: ENTRE BARRICADAS E MICRÓBIOS

Para tentar entender melhor as circunstância deste protesto de 1904, no Rio de Janeiro, fui pesquisar uma fonte confiável de informação. E encontrei a biografia Oswaldo Cruz: entre barricadas e micróbios, de autoria de Moacyr Scliar. O médico sanitarista é uma das figuras centrais que motivou a Revolta da Vacina. Oswaldo Cruz era um defensor ferrenho da vacinação obrigatória da população contra a varíola, doença que era uma preocupação mundial em razão do alto grau de mortalidade na época. Porém, o motivo inicial para a organização dos protestos  não tinha relação com a ciência e, sim, com a política.

EPIDEMIAS X ECONOMIA

O presidente da República nesse período era Rodrigues Alves, um civil apoiado pela oligarquia do café e que tinha como uma das metas ao ser eleito o saneamento do Rio de Janeiro. A então capital federal era uma cidade assolada por diversas epidemias e, por isso, seu porto era considerado perigoso por estrangeiros, o que prejudicava a economia brasileira. 

Por isso, Rodrigues Alves tornou Diretor Geral de Saúde Pública o jovem médico sanitarista Oswaldo Cruz, um visionário que já havia estudado no Instituto Pasteur, na França, e que havia ingressado na faculdade de Medicina aos 15 anos. O que os dois não contavam, assim como o prefeito do Rio de Janeiro, Pereira Passos, nomeado por Alves, é que o Congresso Nacional fosse contrário a medidas como vacinar compulsoriamente a população.

INTERESSES POLÍTICOS

Apesar dos argumentos aparentemente científicos – positivistas afirmavam não acreditar em micróbios, por exemplo – o que havia por trás eram interesses políticos. Parlamentares de origem militar queriam retornar ao poder, saudosos dos governos dos marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto. Outros que também pretendiam aproveitar-se da situação para tentar desestabilizar a jovem República eram os parlamentares com ideais monarquistas. A imprensa também posicionava-se contrária à vacinação obrigatória, por considerá-la arbitrária.

Sobre o protesto, escreveu Moacyr Scliar:

“Tudo começou no dia 10 de novembro de 1904, com uma pequena manifestação contra a vacina. Estudantes saíram às ruas, gritando lemas de protesto e entoando canções satíricas. Houve confronto com a polícia, violência, prisões. À noite, a calma voltou à cidade – mas só aparentemente; já no dia seguinte, novas manifestações, e mais violência, desta vez acompanhada de troca de tiros, a indicar que o conflito se ampliava. No dia 12 o número de pessoas na rua cresceu consideravelmente. […] Em passeata, os manifestantes dirigiram-se ao Palácio do Catete. Tiros foram disparados contra o carro do comandante da Brigada Policial, o general Piragibe. As forças policiais investiram contra os manifestantes, o Exército entrou de prontidão. Rodrigues Alves […] se recusou a demitir o seu diretor de Saúde Pública [Oswaldo Cruz]; não se tratava de um funcionário comum, e, ademais, a vacina obrigatória estava apenas servindo de pretexto para a revolta contra o governo”

A ideia era que a Revolta da Vacina resultasse em um golpe de Estado, o que acabou não se concretizando, mas tendo um saldo  final de pelo menos 30 mortos, além de muitos feridos, presos e deportados. Porém, a imagem de Oswaldo Cruz jamais recuperou-se completamente perante a opinião pública. Scliar cita que, em 1912, quando o sanitarista ganhou uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, as notícias que saíram na imprensa a respeito ainda o associavam à controvérsia da vacinação obrigatória.

A biografia escrita por Scliar encontra-se disponível na íntegra na biblioteca virtual Oswaldo Cruz, assim como outras obras relacionadas à trajetória do médico.

A IMPORTÂNCIA DA VACINAÇÃO

É importante lembrar que a varíola só foi erradicada completamente em 1980, após um esforço internacional, liderado pela Organização Mundial da Saúde, para a vacinação em massa. Em maio deste ano, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, fez a seguinte declaração

“enquanto o mundo confronta a pandemia de COVID-19, a vitória da humanidade sobre a varíola é um lembrete do que é possível quando as nações se reúnem para combater uma ameaça comum à saúde”.
O GOVERNO BRASILEIRO EM (NOVA) CONTRADIÇÃO

Por fim, não podemos esquecer que, um decreto presidencial assinado pelo próprio Jair Bolsonaro, no início da pandemia no Brasil, prevê como uma das medidas de contenção ao coronavírus a vacinação obrigatória. Ou seja, o governo agora parece apenas “jogar para a torcida” dos que têm medo da vacina.

Precisamos que a Ciência e o bom senso prevaleçam!

Imagem: Charge Jornal O Malho (1904)/Reprodução

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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