O racismo no Brasil existe e negá-lo é um desserviço a todas as pessoas interessadas em uma sociedade democrática e menos desigual. Porém, na grande imprensa o debate falacioso sobre liberdade de expressão parece ser mais importante do que a luta antirracista. Nesse sentido, um dos casos mais recentes é o artigo sobre racismo reverso publicado na Folha de São Paulo em janeiro deste ano.

Contudo, este é apenas um dos muitos episódios em que a grande mídia parece mais preocupada em ter uma visão supostamente plural do que em combater preconceitos.

Desigualdade também no jornalismo

Neste cenário, uma pesquisa divulgada em novembro de 2021 revelou que apenas 20% dos jornalistas brasileiros atuando em grandes redações são negros. Portanto, não é de se espantar que muitas pautas sobre racismo sejam abordadas de forma equivocada ou superficial. Para piorar esta conjuntura já desigual, há menos jornalistas negros ocupando cargos com poder de decisão.

Assassino, sim. Racista, não!

A este panorama preocupante, se soma a cobertura de assassinatos de pessoas negras em que o viés do racismo como motivação para os crimes é relativizado. Um dos exemplos mais evidentes foi no brutal homicídio do refugiado congolês Moïse Kabamgabe. Enquanto a imprensa internacional tratou o crime abertamente como racismo e xenofobia, a grande mídia brasileira foi menos enfática na abordagem. Por isso, os assassinos, homens brancos, são respeitosamente mencionados como suspeitos de um crime ainda sem razões evidentes. Um destes homens, inclusive, divulgou um vídeo negando que a motivação do crime tenha sido racista e não ter existido a intenção de matar. (Nestas condições, tudo bem espancar alguém até a morte, será?)

Aparentemente, pessoas brancas podem até admitir que são assassinas, mas não querem ser chamadas de racistas em hipótese nenhuma. 

A outra garota negra

Por uma triste coincidência, o primeiro romance ficcional que li em 2022 tem como enredo a falta de representatividade negra em funções de comando – no caso do livro, no mercado editorial. Também trata sobre a dificuldade de pessoas brancas reconhecerem preconceitos raciais. 

Na obra A outra garota negra, de Zakiya Dalila, a protagonista, Nella, ocupa há anos o cargo de assistente em uma grande editora de Nova York. Dentre seus sonhos, está o de ser a responsável pela publicação de livros com temática antirracista e ter outra colega negra no trabalho. Quando “a outra garota” do título do livro finalmente é contratada, Nella se sente confortável para confidenciar a dificuldade em apontar racismo no texto de um autor famoso, cliente da editora.

“— Mas isso é o que me chateia, porque não posso criticá-lo por isso. 

— Por que não? 

— Porque ele vai pensar que o estou chamando de racista. Você sabe como os brancos ficam quando acham que estão sendo chamados de racistas.” 

Mercado editorial brasileiro é branco 

A realidade do mercado editorial norte-americano, criticada na obra com conhecimento de causa, já que a autora trabalhou durante anos nesta área, não é diferente da conjuntura brasileira. Aqui, os proprietários das grandes editoras são, em sua maioria, homens, brancos e com idade avançada. Isso traz como uma das consequências o baixo percentual de autores negros com livros publicados. Em 2014, por exemplo, apenas 2,5% dos escritores com obras lançadas no Brasil não eram brancos. Dentre os personagens retratados em romances brasileiros no ano mencionado, apenas 6.9% eram negros e 4,5% protagonistas dos enredos ficcionais. Confira mais dados aqui

Ser antirracista é uma necessidade

Sendo assim, percebemos o quanto ainda precisamos avançar nas práticas antirracistas, tanto no mercado editorial quanto jornalístico. Como mulher branca que atua nas duas áreas, procuro sempre enfatizar, para outros brancos, os privilégios invisíveis que temos, em uma sociedade que insiste em um discurso vazio e falso de democracia racial. 

Procurar ser antirracista é um exercício diário de humildade, vergonha e solidariedade. Além disso, destaco a importância de não nos enxergarmos como brancos salvadores, mas conscientes de que nosso apoio à essa luta é fundamental. Afinal, silenciar diante do racismo é ser conivente com agressões e humilhações inaceitáveis.

 Imagem: Facebook/Reprodução

 

 

Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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