Vinte e cinco de julho é o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, mais uma das necessárias lutas dos movimentos negro e feminista. Sempre é preciso ter cuidado e respeito para falarmos sobre temas que não fazem parte da nossa própria realidade. Como mulher branca de classe média, apenas pelo exercício da alteridade e da sororidade posso tentar imaginar o que é ser negra em nosso país. Nesse Brasil da suposta democracia racial, em que o preconceito é velado e acaba sendo relativizado o tempo todo, até por feministas brancas. Dia desses, uma amiga negra escreveu um texto contundente, em que denunciava o racismo em determinados comportamentos masculinos. Qual não foi minha surpresa ao perceber apartes de mulheres brancas, apontando que era “apenas” machismo e tentando dizer que tinham passado por situações até piores. Me deu vergonha por essas minas do feminismo, brancas como eu, que não enxergam as dores das nossas manas negras.

Por essas e por outras situações ainda piores presentes no nosso cotidiano, recomendo a leitura de um livro corajoso e autêntico, chamado Quem tem medo do feminismo negro?, de Djamila Ribeiro, lançado em 2018. A obra conta com um relato autobiográfico e também com uma seleção de artigos publicados em seu blog da revista Carta Capital, entre 2014 e 2017.

Já na introdução, a filósofa e militante demonstra a força de sua história:

 

O feminismo negro não é uma luta meramente identitária, até porque branquitude e masculinidade também são identidades. Pensar feminismos negros é pensar projetos democráticos. Hoje afirmo isso com muita tranquilidade, mas minha experiência de vida foi marcada pelo incômodo de uma incompreensão fundamental. Não que eu buscasse respostas para tudo. Na maior parte da minha infância e adolescência, não tinha consciência de mim. Não sabia por que sentia vergonha de levantar a mão quando a professora fazia uma pergunta já supondo que eu não saberia a resposta. Por que eu ficava isolada na hora do recreio. Por que os meninos diziam na minha cara que não queriam formar par com a “neguinha” na festa junina. Eu me sentia estranha e inadequada, e, na maioria das vezes, fazia as coisas no automático, me esforçando para não ser notada.”

Djamila Ribeiro é uma das participantes da Festa Literária Internacional de Paraty, que começa nesta quarta-feira, com uma programação que tem mais mulheres do que homens.  A homenagem deste ano é para uma mulher, Hilda Hilst, uma poeta talentosa e mas que, em vida, teve pouco reconhecimento do público e da crítica.  É o segundo ano consecutivo que a Flip dá mais espaço para a presença feminina e negra. O fato é mérito da curadoria do evento, feita pela jornalista Joselia Aguiar.  Algo a ser comemorado em um panorama sociopolítico por vezes sombrio para quem é a favor dos direitos humanos e da igualdade de gênero e racial.

Foto: Cássia Tabatini

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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