Quando saiu a notícia na Folha de São Paulo de que o deputado federal Jean Wyllys, do PSOL, havia desistido de assumir o terceiro mandato e decidido por um auto-exílio em local ignorado no Exterior, meu coração se encheu de tristeza. Minha reação foi de alteridade. Tentar me colocar no lugar de um parlamentar de esquerda, assumidamente gay, que enfrentava há anos hostilidade e ameaças pesadas. Entre meus amigos, multiplicavam-se os comentários de apoio, perplexidade e compaixão.

Mas aí comecei a ver as reações de quem não concorda com Jean. “Não vai fazer falta”. “Já vai tarde.” O escárnio vinha com justificativas ideológicas ou com críticas – sem embasamento – à sua atuação como deputado. Mas sabemos que, em grande parte das vezes, o que existe mesmo é homofobia. Jean afronta os conservadores apenas por existir, como em geral ocorre com a população LGBT no Brasil. Não ser heterossexual  parece ser uma ofensa aos cidadãos de bem, que não se constrangem em sair por aí destilando veneno e ódio supostamente em defesa da família, dos bons costumes e da deturpação de preceitos religiosos.

Pessoalmente, considerei o pior comentário o de que as ameaças relatadas por Jean “deviam ser mentira”, mesmo após a execução da vereadora Marielle Franco, do mesmo partido, em 2018 (Marielle, presente!). Me parece que nada disso importa para quem tem o coração endurecido pelo preconceito.

Recorro ao próprio Jean Wyllys, no livro Tempo Bom, Tempo Ruim, de 2014, para tentar entender as causas desse cenário devastador que enfrentamos atualmente.

No capítulo Oriente-se, Rapaz, o agora ex-deputado relata o momento em que abriu o jogo sobre sua sexualidade com a mãe, aos 15 anos, e a reação dela, de ter medo de que o futuro do filho não fosse feliz:

Ela não estava totalmente enganada: num país preconceituoso como o nosso, há uma dificuldade maior para os homossexuais alcançarem a felicidade; todavia, parece-me mais difícil viver na vergonha, fechado no armário. À medida que nos assumimos gays, colocamos em questão a heteronormatividade vigente. Passamos da vergonha para o orgulho, ainda que não definitivamente: há quem se encontre no início desse processo, há quem esteja mais avançado, mas a verdade é que essa passagem nunca se dá por completo.  Expliquei à minha mãe que eu era um homem honrado e que ainda lhe daria muito orgulho, independentemente de minha orientação sexual. Depois dessa conversa, a confiança que ela me tinha aumentou, a ponto de transferir para mim a responsabilidade que deveria ser de meu pai — a função de ‘homem da família’.”

Cabe destacar que Jean Wyllys, oriundo de uma família pobre, estudou e chegou ao nível da pós-graduação, conquista alcançada por uma parcela ínfima da população brasileira. Se fosse heterossexual, certamente seria um exemplo de vencedor para a tradicional família brasileira. Mas como foge da norma vigente, é visto como uma ameaça e, por isso, enfrenta tantas críticas nas redes sociais.

Reproduzo na íntegra o capítulo Cultural Digital do Ódio, por considerar que esclarece muito o que acontece atualmente com o próprio autor do livro:

É chocante imaginar que por trás de sites, blogs, perfis de redes sociais e comentários que disseminam o ódio, a intolerância e o desrespeito, pode haver homens e mulheres que se apresentam como ‘gente de bem’ no espaço público, mas que escondem seus esqueletos no armário. Entretanto, o espaço virtual é feito por pessoas; é de se esperar que elas levem para lá também o que têm de pior. Sim, pois racismo e homofobia são manifestações daquilo que alguns homens e mulheres têm de pior: a vontade de negar a humanidade do outro, o desejo de exterminar o diferente. É preciso estar atento aos conteúdos veiculados na internet, porque o que parece uma brincadeira inócua pode ser a base ideológica para um ato criminoso, como tantos que temos visto por aí.

A afirmação, por parte dos homofóbicos, de que a ofensa aos LGBT corresponde ao exercício de sua liberdade de expressão, garantida como um direito, é uma falácia das mais perigosas que há. Viver em sociedade significa abrir mão daquela parte da liberdade individual que ameaça o bem-estar coletivo, ou, dito de maneira simples, há um limite para a liberdade individual e para a liberdade de expressão, que é a preservação do social e da convivência livre entre pessoas diferentes. Ofender uma pessoa por conta de sua orientação sexual ou gênero é ofender a dignidade da pessoa humana, cuja preservação está prevista na Declaração Universal dos Direitos Humanos, reconhecida pelo Brasil. Claro que, individualmente e num espaço reservado, uma pessoa pode alimentar seus ódios, se assim desejar; porém, ela não pode expressá-los publicamente, ou, se quiser fazê-lo, terá de pagar um preço por isso.”

Espero que Jean Wyllys tenha forças para seguir adiante, mesmo com tantas ameaças a sua vida e a de sua família. “Se fere qualquer existência, serei resistência”, diz uma frase propagada nas redes sociais. É uma comprovação de que a Internet pode ser usada para disseminar amor e nos proteger do ódio. Certamente, não estou sozinha na luta por uma sociedade com menos violência e discriminação, o que me conforta nesses dias difíceis para quem defende os direitos humanos e a igualdade.

Foto:  Cleia Viana/Câmara dos Deputados

 

 

 

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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