Juliana Paes está entre os assuntos mais comentados dos últimos dias, ao postar um vídeo para rebater críticas por sua defesa à médica Nise Yamaguchi. Após a repercussão negativa da gravação, com muitas críticas e alguns famosos voltando atrás na defesa à atriz,  o tiro parece ter saído pela culatra. Mas o que podemos aprender com o vexame de Juliana Paes?   

Em uma gravação com pouco mais de cinco minutos de duração, a atriz destila um festival de falsas simetrias, ignorância política e argumentos vazios. A defesa falaciosa de não ter um posicionamento político é feita sob o argumento de não ser “bolsominion”. Em seguida, Juliana Paes garante não apoiar “os ideais arrogantes de extrema direita nem os delírios comunistas da extrema esquerda”. Também cita querer – sem dizer como – mais empatia entre as mulheres, uma máquina pública enxuta e Estado democrático. Além disso, faz uma estranha relação entre neutralidade e maturidade, sem justificativas que pudessem embasar o acerto da falta de posicionamento.

Empatia entre mulheres

Ao citar a sororidade entre seus ideais para um futuro melhor para o Brasil, a atriz parece ter dois alvos específicos. Primeiro, uma indireta à Samantha Schmütz, a colega de profissão a quem direciona o vídeo, sem citar o nome. Também poderia ser uma explicação por defender a médica Nise Yamaguchi, conhecida pelo apelido Doutora Cloroquina, de supostos ataques machistas durante a CPI da Pandemia. Porém, é sempre bom recordar que Juliana Paes não teve a mesma atitude solidária em relação a mulheres de esquerda que são agredidas com comentários misóginos, como a ex-presidente Dilma Rousseff. E mesmo dizendo-se isenta, a atriz compareceu abertamente a manifestações pró-impeachment de Dilma. Mesmo afirmando ser neutra, já deu entrevista dizendo ser contrária a excessos do feminismo. Sendo assim, a “empatia entre mulheres” desejada por Juliana parece mais um discurso sem embasamento do que algo realmente almejado. 

Para quem não quer cair nos mesmos erros da atriz, recomendo a leitura da obra Sororidade: quando a mulher ajuda outra mulher, escrito pela jornalista Paula Roschel. No livro, o conceito apresentado vai além da solidariedade e respeito entre mulheres. De acordo com a autora, a sororidade, ao ser posta em prática, resultaria na luta por equidade de direitos sociais, políticos e econômicos. Coisas que a atriz já declarou ser contrária: “Existe uma linha do feminismo com a qual eu não concordo muito. Acho errado esse desejo de igualdade com os homens a todo custo.”

Os delírios comunistas

Voltando ao vídeo polêmico, ao mencionar “os delírios comunistas da extrema esquerda”, a atriz propaga desinformação disfarçada de discurso isentão. Além da extrema esquerda não ter a força política apontada por ela, a ameaça comunista é um fantasma antigo. Juliana – e uma parcela de brasileiros que concorda com ela – precisa ir além das fake news. Para isso, é necessário conhecer fatos históricos, como o Plano Cohen. O documento, que continha um suposto plano para a tomada do poder por comunistas, foi forjado por Getúlio Vargas, em 1937. Como hoje se sabe, o objetivo de Vargas  com essa farsa era implementar um regime autoritário. Para saber mais detalhes sobre essa fraude, leiam a obra A ameaça vermelha: o Plano Cohen, de Hélio Silva. 

Porque repercutiu tanto

Além de irmos em busca de conhecimento sobre o passado brasileiro, precisamos estar conectados ao presente. E se você aí é do time que torce o nariz para influenciadores digitais e celebridades do meio artístico, saiba que é importante nos informarmos a respeito deste fenômeno de comunicação. Apesar de Juliana Paes não ser uma influencer surgida nas redes sociais, tem quase 30 milhões de seguidores apenas no Instagram, onde postou o vídeo que virou notícia. Justamente por seu poder de influência foi criticada por Samantha Schmütz, que tem procurado demonstrar como os famosos podem ajudar a pressionar por mais vacinas e também incentivar, quem puder, a ficar em casa.

Para entender melhor esse fenômeno, nada melhor do que uma fonte segura de informação. É o caso do livro De blogueira a influenciadora, de Issaaf Karhawi. Esta obra, resultado de uma pesquisa de quatro anos feita na Universidade de São Paulo, é a primeira no país sobre a profissão digital.

Efeitos da pós-modernidade?

Aos leitores que seguem avessos a redes sociais ou reviram os olhos para influencers, acreditando ser um efeito colateral do século 21, saibam que o culto aos famosos não é nada recente. É o que comprova o livro A invenção da celebridade (1750-1850). Na obra, o francês Antoine Lilti desvenda como era a fama vivida por personalidades históricas como Maria Antonieta, Napoleão Bonaparte, o filósofo Voltaire e o compositor Franz Liszt.

Sem neutralidade

Para além do caso específico da atriz Juliana Paes, o episódio demonstra o quanto a ignorância política é uma realidade assustadora no Brasil. Por isso, precisamos seguir batalhando para evitar a isenção dos abastados e a alienação dos mais pobres. 

“Se você fica neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor.”

Desmond Tutu, Prêmio Nobel da Paz de 1984 

Imagem: Instagram/Reprodução

Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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