Viajei nesse verão para os Estados Unidos, Espanha, Polônia e Coréia do Sul. Não pense o leitor que sou tão rica a ponto de estar indiferente à escalada da cotação do dólar. Estou inclusive mais próxima financeiramente do grupo econômico que o ministro da Economia, Paulo Guedes, recomendou que viajasse dentro do Brasil ao invés de ir para Exterior. (O Igor Natusch já discorreu sobre todo o preconceito de Guedes nesse texto.) O que me restou – ao menos por enquanto – foi conhecer um pouco sobre esses países a partir da leitura de quatro livros. Compartilho com vocês minhas impressões sobre as obras e detalhes que remetem aos espaços em que se passam as histórias, para vocês “viajarem” na literatura durante esse feriadão de Carnaval.

Destino 1: Barcelona, Espanha
Livro: O Verão das Bonecas mortas

Autor: Toni Hill (autor também de “Os Bons Suicidas” e “Os Amantes de Hiroshima”, volume 2 e 3 dessa trilogia policial)

Resumo comentado: Se a grana está curta para visitar a Espanha na vida real, aconselho a leitura desse livro, o primeiro de uma trilogia protagonizada pelo inspetor Héctor Salgado. Barcelona, suas ruas, restaurantes e alguns pontos turísticos ganham destaque nas páginas de O Verão das Bonecas Mortas. Apesar de ser um romance policial considerado convencional por críticos literários, o enredo conseguiu me surpreender. São duas investigações policiais apresentadas na obra: a morte de um adolescente em circunstâncias suspeitas e o desaparecimento da ex-mulher de Héctor. O primeiro caso é resolvido nesse livro. O paradeiro de Ruth só é revelado apenas no final da trilogia. (E envolve questões políticas da época da ditadura espanhola). 

Trecho selecionado: “Enquanto corria pela calçada da praia, ele contemplava o mar. A essas horas ficavam na praia apenas alguns retardatários, pequenos grupos que queriam usufruir o verão ao máximo e um ou outro banhista que tinha o mar quase só para si. As praias urbanas tinham alguma coisa diferente […] não eram de forma alguma paradisíacas nem relaxantes, mas uma passarela com música de discoteca na qual modelos esportistas exibiam um bronzeado intenso, seios salientes e abdome trabalhado nas academias. Às vezes dava a impressão de que elas eram selecionadas por um diretor de casting antes que pudessem aparecer na praia. Ou talvez fosse mais uma questão de autoexclusão: aquelas que não estavam de acordo com o estereótipo procuravam outro cenário mais afastado para expor o corpo flácido. Mas se ao entardecer a praia estava meio vazia, não se podia dizer o mesmo da calçada: casais com crianças, rapazes e garotas de bicicleta, corredores como ele, que saíam quando o sol permitia.”

Bônus de viagem: Héctor Salgado é argentino radicado na Espanha. Há diversas menções no texto a Buenos Aires e ao sotaque diferente do inspetor, considerado charmoso pelas mulheres.

Destino 2: Vermont, Nova Inglaterra (EUA)
Livro: A História Secreta

Autora: Donna Tartt (premiada posteriormente com o Pulitzer de Literatura)

Resumo Comentado: Bem-vindos a uma cidadezinha bucólica que abriga um tradicional campus universitário e seus alunos endinheirados. Por trás das aparências, escondem-se histórias de sexo e drogas dos personagens secundários. O núcleo central da narrativa é o mais interessante: Cinco alunos de uma pequena turma da disciplina de Grego Antigo e seu excêntrico professor resolvem admitir um sexto elemento nesse grupo fora do comum: Richard Tarten, que vem da ensolarada Califórnia para estudar na fictícia universidade Hampden. Mal sabe ele que acabará envolvido em um complicado caso de assassinato e relatos de orgias dionísicas, em meio ao aprendizado de grego arcaico e debates sobre filosofia. O enredo é uma espécie de romance policial às avessas, pois nas primeira páginas já sabemos qual dos colegas da turma será assassinado e por quem. Além disso, é um romance bem visual, com descrições sobre a região aonde se passa a história, sem excessos que possam comprometer o ritmo de leitura. O livro foi lançado na década de 90, antes da autora ter se consagrado mundialmente com o romance O Pintassilgo, que pretendo abordar aqui na coluna em breve.

Trecho selecionado:  “Os primeiros dias antes do início das aulas passei sozinho, em meu quarto branco, nos prados brilhantes de Hampden. E fui feliz naqueles primeiros dias, sério mesmo, como nunca havia sido antes, perambulando como um sonâmbulo, tonto e embriagado com tanta beleza. Um grupo de moças de faces coradas jogando futebol, os rabos-de-cavalo esvoaçantes, os gritos e risadas cruzando débeis os campos aveludados, crepusculares. As árvores carregadas de maçãs, ramos pensos, maçãs caídas, vermelhas na grama do chão, e o cheiro doce e forte que exalavam enquanto apodreciam, atraindo enxames de vespas a zumbir em torno delas. A torre do relógio, em Commons: tijolos cobertos de hera, torre branca, fascinante na distância nevoenta. O choque de ver pela primeira vez uma bétula à noite, erguendo-se nas trevas fria e esguia como um espectro. E as noites, maiores do que imaginava: negras e tempestuosas e enormes, desordenadas e turbulentas de estrelas.”

Bônus de viagem: O livro também traz um relato sobre a viagem de dois personagens a Itália, além de comentários do protagonista sobre a Califórnia.

Destino 3: Seul, Coréia do Sul
Livro: A Vegetariana

Autora: Han Kang (vencedora em 2016 do importante prêmio internacional Man Booker) 

Resumo comentado: Aviso aos leitores que a viagem a Coréia do Sul a partir do livro A Vegetariana não é feliz. O livro é curto, pode ser lido em poucos dias, mas nem por isso a leitura é menos intensa e triste. O enredo é feito a partir de três pontos de vista, tendo como centro a personagem Yeonghye, que decide parar de comer carne depois de ter sonhos perturbadores. A narração é feita a partir dos relatos do marido, do cunhado e da irmã da protagonista, mostrando como a mudança de hábitos alimentares dela interfere de uma forma inimaginável em sua própria vida e na trajetória de seus familiares. É uma obra sobre os limites da sanidade mental e reflexões a respeito de violência doméstica, traições, maus-tratos na infância e seus possíveis reflexos na vida adulta. 

Trecho selecionado: “A cidadezinha vai ficando para trás e, ladeando a estrada, começam a despontar os bosques esverdeados de fins de junho. As árvores espessas cobertas pela violenta torrente parecem animais gigantes reprimindo seu uivo. Ao aproximar-se do parque florestal de Chukseong, o caminho se estreita e ganha cada vez mais curvas. O bosque vai ficando mais próximo e faz vibrar seu corpo molhado. Onde estará a montanha na qual sua irmã mais nova, Yeonghye, foi encontrada, três meses antes? […] Disseram-lhe que Yeonghye tinha desaparecido do sanatório no horário do passeio ao ar livre. [..] Quando um paciente desaparece, uma das hipóteses é que ele tenha descido pela montanha até a saída de Maseok, ou então que tenha se embrenhado pela floresta.”

Bônus de viagem: Seul tem um dos melhores transportes públicos do mundo, com destaque para seu eficiente sistema de metrô. No trecho que selecionei, a irmã da protagonista viaja de ônibus para a clínica psiquiátrica onde Yeonghye está internada, demonstrando o quanto o local é afastado da capital coreana.

Destino 4:  Vale de Kłodzko, Polônia
Livro: Sobre Os Ossos dos Mortos

Autora: Olga Tokarczuk (Vencedora do Nobel de Literatura em 2018)

Local principal da história: Um pequeno vilarejo na Polônia

Resumo comentado:  Se você aí é do time que não gosta de verão, vai se deliciar com as descrições das paisagens geladas de Lufcug, um pequeno vilarejo no  vale de Kłodzko, nas proximidades da fronteira com a República Tcheca. A narrativa em primeira pessoa é feita por Janina, uma idosa defensora dos animais, apaixonada por astrologia e que exerceu uma série de profissões ao longo da vida. Nos dias atuais, é zeladora de casas vizinhas durante o inverno e ajuda um amigo a fazer versões para o polônes de poemas do inglês William Blake (é dele a inspiração para o título do livro: “O Arado Sobre os Ossos dos Mortos”. Alguns críticos literários descrevem o enredo como um thriller ecológico, ao mostrar uma série de assassinatos de pessoas que têm em comum o fato de promoverem caçadas na floresta do vilarejo. Janina tem a suspeita de que os próprios animais se revoltaram contra os humanos e resolveram se vingar. Mas, ao longo da narrativa, percebemos que ela não é uma narradora confiável, o que torna o relato ainda mais interessante e vai além de uma história policial. Outro ponto interessante é que a protagonista revela o profundo descaso dos homens com mulheres mais velhas, mostrando situações de machismo, invisibilidade feminina na terceira idade e solidão. 

Trecho selecionado: “Não se pode estranhar o fato de que as pessoas abandonam o planalto no inverno. É difícil morar aqui entre os meses de outubro e abril, tenho experiência nesse quesito. Todos os anos cai uma enorme quantidade de neve, que o vento esculpe  formando montes e dunas. As recentes mudanças climáticas aqueceram tudo, menos o nosso planalto. Aliás, tem acontecido exatamente o contrário, especialmente em fevereiro, quando cai ainda mais neve e ela demora muito para derreter. Algumas vezes durante o inverno, a temperatura chega a atingir vinte graus negativos.”

Bônus de viagem: Durante a história, Janina faz reminiscências de quando trabalhou na Sìria e na Líbia como engenheira. Em determinado ponto da história, ela conta sua interação com um médico, Ali, que trabalha na cidade polonesa, depois de ter atendido tribos nômades no deserto sírio. 

Fotos: Bancos de imagem/Reprodução

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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