A casa onde morava o escritor Caio Fernando Abreu, no bairro Menino Deus, em Porto Alegre, corre, mais uma vez, o risco de deixar de existir. Vazio, o imóvel está sendo depredado na parte externa por ladrões. O futuro do imóvel, no entanto, pode ser ainda pior do que apenas os furtos cometidos ao longo dos últimos dias. Já que a informação é de que a casa, localizada na rua Oscar Bittencourt, foi vendida para uma construtora, assim como outra moradia vizinha. Dessa forma, parece ser iminente a derrubada de um espaço de memória afetiva e literária de um dos maiores escritores brasileiros da atualidade. 

Algo ainda pode ser feito?

Em 2010, quando a antiga residência de Caio F. foi posta à venda, iniciou-se a campanha Salve a Casa do Caio Fernando Abreu. O movimento, apesar de ter sido expressivo e importante, acabou não atingindo seu objetivo: transformar o lugar em um centro cultural para celebrar o escritor. Na época, virou a casa de uma família, que procurou preservar, à sua maneira, a história do célebre ex-morador.

Memória afetiva e literária em risco

Uma década depois, o risco é ainda maior. Isto porque a demolição é o destino padrão de casas adquiridas por construtoras. Porém, será padrão e banal o passado que envolve esse imóvel? Apesar de o sobrado, em estilo espanhol, não ser uma referência em termos arquitetônicos, acredito que merece ser salvo por outros motivos. Como se sabe, o conceito de patrimônio histórico ultrapassa a questão material. É Memória, é História, é Cultura.

Além disso, a casa foi imortalizada na escrita do autor, em especial no livro Pequenas Epifanias. Era a residência de sua família há muito tempo e foi para onde retornou, em 1994, quando teve o diagnóstico de HIV confirmado. Nesse local, Caio redescobriu-se. Ali, tornou-se jardineiro e sua paixão por flores viraram pujantes textos sobre a luta pela vida, como em A morte dos girassóis:

“[…] tenho aprendido muito com o jardim. Os girassóis, por exemplo, que vistos assim de fora parecem flores simples, fáceis, até um pouco brutas.

Pois não são. Girassol leva tempo se preparando, cresce devagar enfrentando mil inimigos, formigas vorazes, caracóis do mal, ventos destruidores. Depois de meses, um dia pá! Lá está o botãozinho todo catita, parece que já vai abrir.

Mas leva tempo, ele também, se produzindo. Eu cuidava, cuidava, e nada. Viajei por quase um mês no verão, quando voltei, a casa tinha sido pintada, muro inclusive, e vários girassóis estavam quebrados. Fiquei uma fera.”

Neste vídeo, é possível ver a casa de Caio F. antes da reforma promovida pelo proprietário mais recente do imóvel.

Luta pela memória

Porto Alegre é uma cidade que enfrenta inúmeros problemas. Entre eles, a dificuldade de preservar espaços de memória. Ainda há tempo para lutarmos pela criação de um local que possa abrigar não apenas homenagens ao escritor, mas ser um centro de cultura no bairro Menino Deus, área da capital gaúcha cada vez mais carente de atrativos nesse sentido. Aos admiradores de Caio, ressalto que considero sua importância maior do que a casa onde viveu. Mas acredito que Porto Alegre merece um local para celebrar o autor e sua obra.

É possível preservar?

Certamente, se houver interesse da construtora, ainda há possibilidade de se impedir a demolição do sobrado. Sem dúvida, seria um diferencial essa atitude da empresa, ao se tornar uma apoiadora da Arte. Em termos práticos, a preservação poderia ser parcial – a avaliação desta viabilidade deixo aos técnicos da área – ou total. Também sugiro que, ao invés de um novo espaço, a casa de Caio F. abrigue alguma instituição pública da área cultural que esteja em funcionamento em imóvel alugado. Exemplo disso é o Instituto Estadual do Livro, conforme me informa o amigo e historiador João de Los Santos. De qualquer forma, a ideia está lançada e espero não estar sozinha nesse desejo de preservação.

Caio Fernando Abreu e sua importância literária

O escritor da paixão, como uma vez foi chamado por Lygia Fagundes Telles, teve seus primeiros livros publicados em 1970. São eles: Inventário do ir-remediável, Limite branco e Roda de fogo (antologia com outros escritores do Rio Grande do Sul). Cinquenta e um anos depois, o autor segue com leitores fiéis, mesmo que sua partida precoce tenha ocorrido no já distante 1996.

Gaúcho de Santiago do Boqueirão, morador de Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro, com passagens pela Europa, a obra do autor é considerada por especialistas como universal e com evidente qualidade estética. Seu maior sucesso editorial foi Morangos Mofados, mas sua escrita é mais diversa e rica do que somente os contos pelos quais é geralmente lembrado. Ao longo da vida, Caio escreveu romances, textos teatrais, crônicas e poemas. Seu legado ganhou novos leitores nas redes sociais e demonstra a atualidade das temáticas abordadas, como a solidão urbana. 

Obras de Caio Fernando Abreu, por data de lançamento:

  • Limite branco (1970)
  • Inventário do irremediável (1970)
  • O ovo apunhalado (1975)
  • Pedras de Calcutá (1977)
  • Morangos mofados (1982)
  • Triângulo das águas (1983)
  • Os dragões não conhecem o paraíso (1988)
  • As frangas (1988)
  • A maldição do Vale Negro (1988)
  • Onde andará Dulce Veiga? (1990)
  • Ovelhas negras (1995)

Livros lançados após a morte de Caio

1996 – Pequenas Epifanias

1996 – Estranhos estrangeiros

1997 – Teatro completo

2002 –  Caio Fernando Abreu: cartas, com organização de Italo Moriconi

2005-6 – Três volumes da série Caio 3D, seleção da obra das décadas de 1970, 1980 e 1990, com alguns textos inéditos

2009 – Para Sempre Teu Caio F., cartas, conversas, memórias de Caio Fernando Abreu, de Paula Dip

2012 –  A vida gritando nos cantos, seleção de crônicas inéditas, e de Poesias nunca publicadas de Caio Fernando Abreu, organização de Letícia Chaplin e Márcia de Lima e Silva

2018 –  Contos Completos, de Caio Fernando Abreu

Imagem: Sandra La Porta

Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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