Há muito se fala das ligações escusas de Jair Bolsonaro e de sua família com as milícias, mas agora o tema atingiu proporções difíceis de disfarçar, depois da morte do chefe miliciano Adriano da Nóbrega durante operação policial na Bahia, em circunstâncias ainda a serem esclarecidas. Adriano – ex-policial acusado de envolvimento na morte da vereadora Marielle Franco no Rio de Janeiro – tinha uma proximidade inegável com a família Bolsonaro. Familiares trabalharam para o então deputado estadual Flávio Bolsonaro, além de o filho 01 de Jair ter condecorado Adriano quando este ainda era policial. Depois, até fez visitas para ele na cadeia. 

Para completar esse mês de fevereiro com policiais fora da lei, explodiu um motim de PMs encapuzados no Ceará, levando a uma escalada de violência nas cidades cearenses. Até o momento da publicação desse texto, esses policiam seguiam paralisados, exigindo melhorias salariais. A questão é que quem atua na área da segurança pública é proibido por lei de fazer greve. Muitos especialistas consideram que essa onda de insurgência policial no Ceará foi promovida por PMs milicianos e adeptos do bolsonarismo. Policiais favoráveis ao uso da intimidação e de uma greve ilegal, em uma inversão do que se espera da corporação: a manutenção da ordem pública. Enquanto isso, o Exército e a Força Nacional foram chamados às pressas para dar conta da segurança da população, assustada diante de ações policiais que promoveram toques de recolher e ameaças para exigir o fechamento de lojas. Isso sem esquecer o episódio do senador licenciado Cid Gomes, baleado pelos policiais amotinados ao tentar entrar em um quartel com uma retroescavadeira. 

Essas notícias reais poderiam fazer parte do enredo de um livro semelhante a Elite da Tropa 2, focado na “banda podre” da polícia. A obra escrita pelo antropólogo e cientista político Luiz Eduardo Soares, em coautoria com Rodrigo Pimentel, André Batista e Cláudio Ferraz, foi lançada em novembro de 2010, junto com a continuação de Tropa de Elite nos cinemas. No trecho a seguir, o personagem principal (um policial civil honesto) explica, através de uma conta no twitter, as relações entre milícias e política no Rio de Janeiro (e no Brasil):

“Estamos na merda porque policiais malpagos sobrevivem graças à insegurança. A degradação começa no bico e evolui até a milícia. about 16 minutes ago via web 

Havia, e ainda há, grupos de extermínio. Policiais tiravam graninha por fora matando quem atrapalhasse comerciantes e o sossego do bairro. about 15 minutes ago via web

Havia, e há, segurança privada informal. O bico. Policiais recebem pagamento de clientes voluntários. É ilegal, mas o serviço é decente. about 15 minutes ago via web 

Você jogaria a primeira pedra? PF e autoridades fingem que não veem por escrúpulo de reprimir ações decentes que compensam salários ruins. about 15 minutes ago via web 

Tem mais. Os governos toleram o bico porque, sem essa complementação, a demanda salarial levaria os policiais às ruas e o orçamento ao ralo. about 14 minutes ago via web

Entenderam? A segurança privada (informal e ilegal) financia o orçamento público da segurança. Maravilha! É o gato-orçamentário. Budget-cat. about 13 minutes ago via web

Sensacional: Brasil, paraíso da malandragem e do jeitinho. Você não olha o que faço e eu fecho os olhos pro que você faz. E está tudo certo. about 12 minutes ago via web 

Claro que sempre há os parasitas que recebem uma grana fixa ou um percentual do tráfico, das maquininhas caça-níqueis, do jogo do bicho. about 12 minutes ago via web 

Agora vem a melhor parte. O mar estava pra peixe, e os mais espertos avaliaram que era hora de virar tubarão e passar do varejo pro atacado. about 11 minutes ago via web 

Pronto, chegamos à máfia. Às milícias. Os espertos conclamaram os comparsas a organizar a bagunça e ganhar dinheiro feito gente grande. about 11 minutes ago via web 

Por que só os políticos ganham propina de empreiteiras, em licitações? Por que não cobrar taxa de tudo que tem valor, é útil ou gera renda? about 9 minutes ago via web 

Se o cara é policial, tem arma e sabe o caminho das pedras, por que não cobrar pelo direito de morar, vender, transportar, ter luz, gás, TV? about 8 minutes ago via web 

O Estado não usa força para cobrar impostos? Por que não fazer o mesmo com menos burocracia? Até ‘segurança’ os milicianos dariam em troca. about 7 minutes ago via web 

Começaram expulsando traficantes e os substituindo no domínio territorial e político das favelas e dos bairros pobres. Rico repele extorsão. about 7 minutes ago via web 

Os caras enriqueceram, se elegeram vereadores e deputados, absorveram parte da mão de obra do tráfico, explodiram delegacias e estão por aí. about 6 minutes ago via web 

Estão em toda parte: Zona Oeste e Sul, Baixada, São Gonçalo. Violentos e audaciosos. Matam, extorquem, torturam, humilham, sequestram. about 6 minutes ago via web 

Nas eleições, além de elegerem-se, diretamente, aliam-se a políticos corruptos e vendem acesso exclusivo a comunidades inteiras. about 4 minutes ago via web 

Com mandatos e aliados no coração do poder, ganharam relativa imunidade. […] about 2 minutes ago via web 

Pior é ver uns cretinos defendendo milícias. Não sei se são idiotas ou cúmplices, ou ambos. Hoje, andam meio envergonhados, os canalhas. about 1 minutes ago via web”

Certamente, um terceiro volume de Elite da Tropa nos ajudaria a entender melhor a conjuntura atual. Quem sabe, diante de todos esses episódios milicianos, os quatro autores, que têm muito conhecimento sobre corrupção policial e suas ligações com a política, não se animam a escrever um novo livro?

Confira uma cena de Tropa de Elite 2:

Imagem: Tropa de Elite 2/Divulgação

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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