Senti a sexta-feira do Dia da Consciência Negra como uma porrada na cara, por ser uma branca privilegiada, ainda que consciente do racismo estrutural existente no Brasil. De madrugada, recebi por whatsapp o vídeo de um homem negro sendo cruelmente espancado e a notícia de sua morte. Aos poucos, as redes sociais e os noticiários foram ficando repletos das revoltantes informações. Ficamos todos sabendo que João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, foi surrado até a morte por seguranças do supermercado Carrefour, na zona norte de Porto Alegre. O brutal assassinato de Beto gerou uma onda de protestos em diversas cidades brasileiras e teve repercussão internacional na imprensa. 

SENTI VERGONHA POR SER BRANCA

Enquanto me solidarizava às manifestações de repúdio a esse cruel assassinato de um homem negro, o lado tóxico das redes sociais me trouxe vergonha por ser branca. Em um dia em que permaneci trabalhando meio anestesiada em frente ao computador, observei relativizações do racismo envolvendo o caso, tentativas de culpar a vítima e defesa do Carrefour após protestos mais “violentos”. O patrimônio de uma empresa ser atingido durante protestos é pior do que um assassinato motivado por racismo? Para boa parte dos brasileiros, em especial brancos e de classe média, sim. Essas declarações míopes na Internet demonstram o quanto ainda temos a avançar enquanto sociedade.

MAS O QUE PODEMOS FAZER PARA COMBATER O RACISMO?

Em primeiro lugar, é preciso enxergá-lo:

“O RACISMO ESTÁ EM TODO O LUGAR
[…] Ele está na estrutura da sociedade. Para pessoas brancas, ele pode não estar tão claro. Mas para pessoas negras, ele é visível todos os dias. E,por conta dele, somos invisibilizados.”

O trecho acima é do livro Uma atitude por dia: Por um mundo com menos racismo, de Gabriela Oliveira. A escritora, designer e empreendedora concedeu uma entrevista para as redes sociais da minha produtora nesta sexta-feira. Gabriela começou a live com as seguintes reflexões:

 “O assassinato de João Alberto Silveira Freitas se soma, infelizmente, a muitos outros. Corpos negros, independente da idade, são alvos da violência gratuita motivada pelo racismo no Brasil.”  
“As empresas não pegam para si a responsabilidade sobre casos de violência como esse ocorrido no Carrefour. Tanto que a empresa só emitiu uma nota de repúdio. Isso não é suficiente.”

Durante a entrevista, Gabriela trouxe muitas sugestões práticas de como cada um, dentro de sua realidade, pode contribuir para combater o racismo. Precisamos, em primeiro lugar, fazer com que  as pessoas parem de negar sua existência. Evidentemente, isso é difícil em um país onde o presidente da República e seu vice fazem o desserviço criminoso de declarar que o Brasil não é um país racista. Aos brancos, como eu, cabe apoiar e engajar-se nessa luta, para mostrar que vidas negras importam.

Como Gabriela ensina, neste trecho de seu livro:

“Pessoas brancas precisam entender seu papel no combate ao racismo. Entender seu lugar de fala, agir a partir dele e se aliar de forma ativa e consistente. […] A luta antirracista é uma prática ativa. Um mundo com menos racismo é possível.”

Confiram  a entrevista completa de Gabriela Oliveira no canal da F Cunha Produtora:

Foto e charge gentilmente cedidas ao Vós por Repórter Popular

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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