O preconceito etário ainda é uma realidade em pleno século 21 relacionado, principalmente, às mulheres.  A cantora Madonna, de 62 anos, é  um desses alvos, O motivo das criticas? Querer seguir com o mesmo comportamento,  associado à sensualidade, que teve desde o início de sua bem-sucedida carreira.

Mas já foi bem pior.  Vejamos esse texto do século 19:

 

“Uma jovem tem ilusões demais, é inexperiente demais e o sexo é cúmplice demais de seu amor, para que um rapaz possa sentir-se lisonjeado; ao passo que uma mulher conhece toda a extensão dos sacrifícios a serem feitos. Enquanto uma é arrastada pela curiosidade, por seduções estranhas às do amor, a outra obedece a um sentimento consciencioso. Uma cede, a outra escolhe.”

O trecho acima é do clássico A Mulher de Trinta de 30 Anos, de Honoré Balzac, escrito entre 1829 e 1842.  Nesta época, não era comum haver heroínas românticas com a idade mencionada no título da obra. Sendo assim, o escritor francês prestou uma homenagem ao elogiar a “maturidade” feminina. Ao longo dos tempos, seu nome ficou associado ao termo balzaquiana, para referir-se a mulheres com mais de três décadas de vida.

Visão datada

Se no século 19 Balzac foi considerado lisonjeiro por valorizar a beleza e qualidades das mulheres após ultrapassarem a casa dos 20 anos, nos dias atuais os argumentos do autor soam descabidos. Primeiro, por fazer comparações diminuindo as jovens para enaltecer as maduras. Também é curioso que o rapaz mencionado no texto como muito jovem tem ele mesmo… 30 anos! A partir disso, podemos perceber que a passagem do tempo é avaliada de forma diferente, de acordo com o gênero.

Velhice como defeito

Evidente que nos dias atuais o conceito de velhice mudou, até porque a expectativa de vida é maior. Porém, muitas mulheres jovens, e em desconstrução para temas como luta antirracista e a causa LGBTQUIA+, ainda falham no que diz respeito ao preconceito etário. Não é incomum ouvirmos entre grupos femininos com faixa etária entre 20 e 30 anos comentários depreciativos sobre os próprios corpos e comportamentos, associando-os a uma suposta velhice precoce.

Feminismo x Velhice

Além disso, há uma lacuna na luta feminista nos direitos das mulheres idosas e um silenciamento sobre a liberdade dos corpos na maturidade. Dentre as causas para esse mau comportamento feminino e feminista, estaria a de que jovens  acabam cedendo aos padrões sociais. O discurso da indústria da beleza associa juventude aos ideais de perfeição e consequente empoderamento corpóreo, relegando as mulheres mais velhas às sombras. Saiba mais a respeito dessa visão aqui.

Sabedoria que distancia da luta

No artigo Feminismo e Velhice, a professora de Antropologia Guita Grin Debert apresenta um argumento diferente. A especialista destaca que, ao longo dos últimos anos, houve uma mudança na percepção da velhice, buscando associá-la a fatores positivos. Sendo assim, poderia haver um entendimento entre as feministas de que as mulheres mais velhas deveriam ser sábias e, portanto, mais dóceis:

“A raiva e a fúria necessárias à luta ficam barradas quando o distanciamento, a neutralidade, a imparcialidade próprias da sabedoria passam a ser uma característica da boa velhice, porque se impede aos velhos galvanizarem essas emoções e sentimentos na luta por mudanças sociais.”

Para saber mais sobre envelhecimento, sugiro a leitura do livro A Reinvenção da Velhice, da antropóloga Guita Grin Debert.

Reforçando a visão da antropóloga, considero que a raiva em mulheres mais velhas é julgada como uma atitude ranzinza. Já mulheres mais jovens seriam consideradas rebeldes, libertárias. Dessa forma, ainda é necessário que haja a conscientização das feministas para bandeiras associadas à maturidade e envelhecimento. A necessidade aumenta em um país como o Brasil, onde reformas como a da Previdência nos indicam um futuro muito preocupante para todos, incluindo as mulheres.

Avós da Razão

Além disso, em um feminismo realmente libertador e inclusivo, é preciso lutar pelo fim do preconceito etário. O ageismo, como também é chamado, é completamente descabido nos dias atuais. As Avós da Razão, youtubers idosas que alcançaram grande sucesso e visibilidade, respondem, neste vídeo, sobre o questionamento de uma fã sobre se aos 40 anos já pode considerar-se velha.

Imagens Site oficial Madonna/Reprodução

Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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