Bastou o anúncio da atriz Fernanda Montenegro concorrendo – sem oponentes – a uma vaga na Academia Brasileira de Letras para que questionamentos fossem levantados. Ela não é escritora, bradam os conservadores que abominam a postura antibolsonarista de Fernanda. É injusto com Conceição Evaristo, questionam os antirracistas, em referência à candidatura da escritora mineira à ABL, na qual recebeu apenas 1 voto. 

Disparidade de gênero

De qualquer forma, a escolha de uma mulher para ocupar a vaga – ainda que branca e hetero – desperta atenção pela disparidade de gênero dentro da ABL. Dos atuais 40 imortais, apenas 5 são do sexo feminino. O ingresso da primeira escritora como integrante da tradicional (e elitista) instituição ocorreu apenas em 1977. A conservadora Rachel de Queiroz virou imortal desprezando o pioneirismo e afirmando não enxergar no feito uma vitória para outras mulheres por “não ser feminista”.  Além disso, era abertamente a favor do regime militar, o que foi considerado “um morde e assopra”. De um lado, a academia inovava ao finalmente ceder na questão de gênero, 80 anos depois de sua fundação. Do outro, não batia de frente com a ditadura ao eleger uma defensora de Ernesto Geisel.

Nesse sentido, a escolha de Fernanda Montenegro poderia ser uma sinalização de que os integrantes da ABL não estão dispostos a eleger alguém alinhado com Jair Bolsonaro. Apesar disso, na teoria, a Academia é apartidária e apolítica, mesmo com membros como José Sarney e Fernando Henrique Cardoso entre os atuais imortais. 

Fernanda Montenegro não é escritora

A ABL sempre abriu as portas para figuras célebres de outras áreas do conhecimento. Em retrospectiva histórica, um dos casos mais emblemáticos foi do pai da aviação Santos Dumont, na década de 1930, e, 60 anos depois, do cirurgião plástico Ivo Pitanguy. Ou seja, não é uma novidade a escolha de uma figura pública fora do universo da Literatura, mas que tenha publicado livros. Caso de Fernanda Montenegro, que lançou a autobiografia Prólogo, ato, epílogo, entre outras obras.

Conceição Evaristo

De setores mais à esquerda da sociedade, o anúncio de Fernanda Montenegro despertou um certo desconforto por recordar do incidente envolvendo Conceição Evaristo. Em 2018, a escritora mineira teve seu nome aclamado por parte do público, como uma reparação histórica pelo fato de uma mulher negra finalmente vestir o tradicional fardão de imortal.  Conceição, no entanto, ousou romper os rígidos protocolos da eleição, com telefonemas e envios de presentes aos integrantes da ABL. Como resposta, os membros da entidade não pouparam a rebeldia, já que são  favoráveis a toda pompa e cerimônias,

Hoje em dia, a escritora garante que não pretende lançar nova candidatura, porém não poupa críticas à postura da ABL.

Sem tantos “rapapés”

Fernanda Montenegro, por sorte, será poupada, em parte, da ingrata missão de pedir votos. Candidata única (os outros interessados, em respeito, retiraram seu nome do pleito), está em novo isolamento do alto de seus 91 anos, ainda em função da pandemia, com acesso dificultado à comunicação e tecnologia. Porém, enviará telegramas, uma praxe da qual os imortais não abrem mão em pleno século 21.

Viva Fernanda!

Por fim, considero que a Academia Brasileira de Letras tem muito mais a ganhar com a presença potente de Fernanda Montenegro como imortal do que ao contrário. Afinal, tem renome internacional e uma carreira artística sólida. Além disso, a atriz se mostra figura lúcida e forte no combate aos horrores políticos atuais. Por isso, sua eleição, em 4 de novembro, será bem-vinda, como um sopro de esperança.

Imagem: Facebook/ Reprodução

 

 

 

Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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