ALERTA: ESSE TEXTO ABORDA A VIOLÊNCIA CONTRA PESSOAS LGBTQIA+. A INTENÇÃO É DENUNCIAR ESSE CENÁRIO INACEITÁVEL E CONTRIBUIR PARA QUE A SITUAÇÃO ATUAL SEJA MODIFICADA. PORÉM, PODE PROVOCAR GATILHOS EM QUEM JÁ PASSOU POR ESSE TIPO DE SITUAÇÃO. 

QUANDO O LAR NÃO É SEGURO

O  senso comum costuma nos fazer associar o conceito de lar a um ambiente seguro e confortável, um espaço onde podemos nos refugiar da vida lá fora e, no momento atual, nos protegermos do perigo da proliferação do novo coronavírus. Mas não é para todo mundo que é assim. O distanciamento social de amigos e a convivência intensa com familiares podem ser dolorosos para pessoas LGBTQIA+. Pesquisas recentes apontam aumento da violência doméstica provocada pela homofobia e transfobia no Brasil nos últimos meses. Um cenário de vulnerabilidade, infelizmente, não é novidade para essa parcela da população, oprimida pela heteronormatividade e pelo machismo. Para quem quer entender melhor essas existências, sugiro a leitura do livro Contos Transantropológicos, da escritora, professora e filósofa Atena Beauvoir.

TRANSIÇÃO DE GÊNERO

Atena denuncia em sua obra uma dura realidade, como no conto Uma verdade de mulher, no qual é exposta, de forma contundente, a repulsa paterna à transição de gênero do filho:

“Olga começou sua transição de gênero, do socialmente masculino morto para o feminino vivo, do garoto que nunca era para a garota que sempre se fazia ser a si mesma. Ela estava radiante. Já havia terminado o ensino médio e completava 18 anos naquele sábado. Resolveu, portanto, divulgar para toda família que seu nome real era Olga e que sempre sentiu em si, a garota que sempre esteve presente em seu ser. […]

E no primeiro minuto de sua presença, Olga recebe um soco da vida. Ou melhor de seu próprio pai. Ninguém imaginaria que aquele soco iria mudar o rumo inteiro da família. Olga foi levada prontamente para o hospital por um casal de primos. Sua mãe chorava em casa tentando acalmar o pai que guardava seus pertences em uma mala. Gritava que aquele traveco não era seu filho. Que não viveria sob o mesmo teto que um veado endemoneado que fazia-o passar vergonha na firma. A mãe de Olga pedia perdão, como todo o peso e a culpa da maternidade produzindo um ser defeituoso, ela se empunha a responsabilidade por tal desvio de caráter do primogênito. Não houve retorno. O soco rachou profundamente as estruturas da família. O símbolo da violência produzia um ar ressoante de guerra instaurada. A face da aniversariante também foi rachada. O soco imortalizou na alma de Olga, que sua embarcação existencial havia partido do porto.”

EMPATIA E RESPEITO

No posfácio da obra, Atena explica que escreveu o livro pensando nas pessoas cisgêneras, que precisam conhecer outras realidades para, assim, desenvolverem mais empatia e respeito às diferenças:

“Não é um livro escrito para pessoas trans. Essas sabem sobre tudo o que está escrito. Não sabem no sentido do texto posto, mas do contexto exposto. Esse livro é para pessoas cis. Essas desconhecem o universo ontológico da existência inexistente. Sempre são o que são, pois nasceram assim: existências dadas. E as aceitaram. Onde quer que se diga – Eu sou trans – será entendido como uma inexistência da construção da nova existência. E as estruturas históricas sempre trarão ao nosso redor o esforço de nos fazer sentir que devemos viver o que não vive e nunca viveu em nós. Enquanto escrevo esse posfácio, lembro do início da minha transição de gênero e o quanto foi angustiante. Sangrei até esvaziar o conteúdo de uma existência. Agora gero meu próprio sangue para dar forma e força ao novo corpo existente. Só existe liberdade na existencialidade do ser.”

O livro Contos Antropológicos pode ser adquirido direto com a autora.

MÃES PELA DIVERSIDADE

Além da leitura, recomendo que vocês sigam nas redes sociais o projeto Mães pela Diversidade, um coletivo criado em São Paulo, em 2014. Assim o grupo se apresenta, em uma postagem recente:

“ […] fruto de um encontro espontâneo de mães e pais de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais de todo o Brasil, preocupados com o avanço do fundamentalismo religioso, a insegurança jurídica, o preconceito e a violência contra a população LGBTQI+. Além disso, o grupo luta pelos direitos civis de seus filhos e filhas.
A princípio, funcionou como um grupo informal de encontro, mas, com o crescimento e necessidades crescentes de controle e compromissos, o grupo passou a adquirir identidade jurídica. Trata-se de um movimento político suprapartidário que tem por objetivo trabalhar em prol dos direitos civis de nossos filhos.”

Imagem: Chickenonline/ Pixabay

 

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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