Esta semana foi marcada por falas polêmicas do ministro da Economia, Paulo Guedes, em uma reunião do Conselho de Saúde Suplementar. No momento em que a pandemia se aproximava da marca oficial de 400 mil mortos no Brasil, o ministro julgou adequado falar que:

“Todo mundo quer viver 100 anos, 120, 130 (anos). Não há capacidade de investimento para que o Estado consiga acompanhar.”

Dias depois da reunião, que teve o conteúdo divulgado nas redes sociais, nova fala controversa de Paulo Guedes vinha à tona, dessa vez atacando o Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies). O ministro relatou, em tom de piada, que o filho do porteiro do seu prédio tirou zero em todas as provas e ainda assim conseguiu o financiamento. Mais adiante, durante o encontro, fez novas criticas:

“Deram bolsa para quem não tinha nenhuma capacidade. Botaram todo mundo… Exageraram.”

Como de costume, os argumentos de Paulo Guedes são carregados de preconceito, como na famosa fala sobre as empregadas domésticas irem à Disney. Esta declaração foi proferida antes mesmo da pandemia e da situação econômica do Brasil estar tão complicada como agora. Considero importante identificar as origens do pensamento de Paulo Guedes, que é seguido fervorosamente por Jair Bolsonaro, que briga com todos os ministros, menos com o “posto Ipiranga”.

Preconceito etário?

Em relação à fala de Guedes sobre o envelhecimento da população brasileira, poderíamos pensar ser esse um preconceito em relação à velhice, o etarismo. Indo por essa linha de raciocínio, a idade do próprio ministro tornaria o comentário dele um contrassenso. Já que, do alto dos seus 71 anos, ele faz parte da chamada terceira idade. 

De qualquer forma, para contrariar Paulo Guedes e sermos um povo cada vez mais longevo – desde que com saúde e renda suficiente para a sobrevivência – sugiro a leitura de Os segredos da longevidade Com o autoexplicativo subítulo “um verdadeiro manual para ser saudável e viver mais por meio da alimentação, da medicina preventiva e do equilíbrio do seu organismo”, a obra é de autoria do médico Edmond Saab.

Preconceito com a nova classe média?

Prosseguindo na investigação da origem do discurso preconceituoso de Guedes, podemos pensar em preconceito com a mobilidade social. Um das formas de se alcançar a ascensão social é através do ingresso dos trabalhadores no meio universitário. Para aprofundar esse tema, um livro interessante é A nova classe média brasileira – necessidades, anseios e valores, de Guilherme Caldas de Castro. 

Ódio aos mais pobres?

Mas as raízes do discurso de ódio de Paulo Guedes e de todo o governo Bolsonaro parecem ir além disso. Seria uma espécie de raiva dos pobres, por existirem e “darem trabalho” ao Estado, que precisa lidar com sua presença incômoda. Nesse sentido, a obra Aporofobia, a aversão ao pobre: um desafio para a democracia me parece bastante adequada para entender este conceito e procurar fazer conexões com o pensamento bolsonarista. 

Em entrevista ao El País, a autora deste livro, a filósofa espanhola Adela Cortina, explica: 

Em sociedades como as nossas, organizadas em torno da ideia de contrato em qualquer das esferas sociais, o pobre […] não tem nada de interessante para oferecer em troca, e, portanto, não tem capacidade de contratar.”
 Aversão aos mais pobres

O termo aporofobia, que seria o medo ou aversão aos pobres, foi criada pela própria filósofa e  escolhido como a palavra do ano em 2017, pela Fundación del Español Urgente. Também foi incorporado, na mesma época, ao Diccionario de la lengua española. No meu ponto de vista, a aporofobia poderia ser um dos motivos da elite econômica brasileira ainda apoiar o governo Bolsonaro, mesmo com a escassez de vacinas contra a covid-19, por exemplo.

Manifestações da extrema direita

Não seria à toa, portanto, que neste feriado de 1º de maio manifestantes em possantes SUVs foram às ruas de diversas cidades brasileiras. Suas pautas, porém, eram diferentes das habituais reivindicações por mais emprego e renda, como seria o esperado no Dia do Trabalhador.  Esses protestos preferiram ser uma manifestação aberta de apoio a Bolsonaro. Além disso, defendiam o voto impresso nas eleições de 2022 e a volta da ditadura militar, entre outras pautas sem o menor sentido.

Apropriação dos protestos

Para além das manifestações em si, esse grupo parece estar satisfeito pela apropriação das manifestações do dia 1º de maio, que historicamente têm um protagonismo da esquerda brasileira e das centrais sindicais. Porém, é sempre bom lembrar que apoderar-se do Dia do Trabalhador e inverter a lógica das pautas de reivindicações não é novidade no Brasil.   O primeiro a fazer isso foi Getúlio Vargas, que trocou o nome do feriado para Dia do Trabalho. Também usou a simbolismo da data a favor de seu governo, criando o Ministério do Trabalho justamente neste dia, em 1930.

Até quando os mais pobres apoiarão Bolsonaro

Nesse sentido, a apropriação parece semelhante. Getúlio, no entanto, sempre buscou dar algo em troca do esvaziamento da luta dos trabalhadores. Como a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), criada em 1943. Já o governo Bolsonaro dá pouca contrapartida aos mais pobres. Mesmo o auxílio emergencial, criado em função da pandemia, passou de R$ 600,00 para uma média de R$ 150,00. Dessa forma, resta saber até quando os eleitores das camadas mais empobrecidas da população ainda vão dar sustentação a Bolsonaro. A elite, pelo jeito, seguirá dando apoio, haja vista as patéticas manifestações deste final de semana.

Imagem: Fábio Rodrigues Pozzebon / Agência Brasil

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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