Paulo Freire ser um dos alvos do ódio bolsonarista não é novidade. Mas acusar de ideologia esquerdista uma multinacional norte-americana como a empresa Google por causa de Freire é um dos disparates recentes do clã do presidente da República. Tudo isso porque a Google resolveu, no último domingo, fazer uma homenagem ao centenário de Paulo Freire. Para isso, utilizou o recurso conhecido como Doodle, uma versão do logotipo da empresa usada para esse fim em datas especiais. 

Como reação, Eduardo Bolsonaro escreveu no Twitter que ninguém deveria estranhar se o próximo homenageado pelo Google fosse o ex-presidente Lula. Entretanto, o chilique do filho 03 é totalmente político, já que razões para homenagear Freire não faltam. Educador consagrado mundialmente, é considerado o patrono da Educação Brasileira, entre outros tantos feitos. 

Além disso, esse tipo de discurso bolsonarista é só mais uma das heranças da ditadura militar. Aos desavisados, vale lembrar que a perseguição a Paulo Freire começou em 1964, antes mesmo dele publicar o famoso A Pedagogia do Oprimido – o que faria 4 anos depois, durante exílio no Chile. 

Ditadura Militar

Desde o início do golpe militar, o método de educação de adultos proposto por Freire era considerado subversivo. No primeiro interrogatório, o então tenente-coronel Hélio Ibiapina Lima insistia em saber se o pedagogo era comunista.  Afinal, sua proposta de alfabetização incentivava o pensamento crítico. Ibiapina Lima, não podemos esquecer, é um dos principais responsáveis por graves violações aos direitos humanos durante este período de repressão política. Dentro da lógica da ditadura, a prisão de Freire tinha como intenção principal colocar fim ao projeto de alfabetizar, através deste método libertário, 2 milhões de adultos em 20 mil pontos de cultura. Somente no Estado da Guanabara (atual Rio de Janeiro), 6 mil pessoas estavam inscritas para participar das aulas. 

Esperança

Mesmo com as perseguições políticas e o exílio, Paulo Freire prosseguiu com seus ideais. Tinha consciência, no entanto, de não ser uma unanimidade, mesmo entre pessoas da área da Educação Em 1992, na apresentação do livro Pedagogia da Esperança, ele comentou sobre as acusações que sofria na América Latina:

“Criticavam em mim o que lhes parecia minha politização exagerada. Não percebiam, porém, que, ao negarem a mim a condição de educador, por ser demasiado político, eram tão políticos como eu. Certamente, contudo, numa posição contrária à minha. Neutros é que nem eram nem poderiam ser.”

Confira aqui uma reportagem do CPERS sobre Paulo Freire, com links para 17 obras gratuitas do Patrono da Educação.

Homenagem

Em abril de 2019, escrevi, aqui na coluna Voos Literários, a respeito da grave crise política que já enfrentávamos. No final deste texto, mencionei Paulo Freire.  

“Por fim, já que a Educação desse país tá de mal a pior e o governo federal só sabe nomear louco para esse ministério, só tenho uma coisa a dizer. Bom mesmo era no meu tempo de adolescência, em que Paulo Freire era secretário de Educação em São Paulo e não execrado publicamente como nesse século 21.”

Em tempo

Freire é o terceiro pensador mais citado em trabalhos acadêmicos no mundo. Por isso, a ignorância bolsonarista pode tentar negar sua importância, mas todos que prezam o pensamento crítico pensam ao contrário.

Viva Paulo Freire, eterno em seu legado! 

Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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