Um edital proposto pela Câmara de Vereadores de Porto Alegre sobre uma ópera-rock para homenagear a Revolução Farroupilha tem movimentado o meio cultural da cidade. O assunto tomou conta das redes sociais e, de uma forma geral, os artistas consideraram no mínimo insólita a postura do vereador Valter Nagelstein de fazer uma proposta que dá pouco espaço para a criação. O cineasta e músico Carlos Gerbase fez um post público sobre o assunto que vale a pena ser lido.

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Entre as críticas, está a falta de liberdade artística

Um exemplo é o fato de que até o nome do espetáculo já foi escolhido previamente: Revolução Farroupilha, uma História de Sangue e Metal. Para ser encenado, deve usar como referência apenas um livro: Revolução Farroupilha, de Luiz Coronel e Danúbio Gonçalves. Luiz Coronel defendeu a proposta, em um texto publicado pela mídia local. Porém, vale lembrar que ele ganhará 7% com direitos autorais do valor total de R$ 350 mil (cerca de R$ 24 mil). Sendo assim, seria pouco provável que ele se manifestasse contra a adaptação de sua obra para esse espetáculo.

Quando o edital foi avaliado pelo Conselho Municipal de Cultura, houve o questionamento da razão de usar apenas a obra de Luiz Coronel  para a adaptação da ópera-rock, já que existem diversos livros a respeito da Revolução Farroupilha. Entre eles, textos do consagrado Simões Lopes Neto, que já estão em domínio público e isentaria o ganhador do edital de pagar direitos autorais. Aqui tem uma matéria bem completa analisando os pontos mais críticos do edital.

Outra reflexão que proponho é sobre a obrigatoriedade do espetáculo ser uma ópera-rock. Já li críticas sobre o fato de ser um gênero datado e sem conexão com o imaginário gauchesco, criado lá na década de 1970. Porém, considero existir mais um problema para os eventuais proponentes. Os espetáculos desse tipo mais famosos, como Tommy (do The Who) e The Wall (do Pink Floyd) partiram de músicas já criadas pelas bandas para , depois, haver a adaptação para o gênero em questão.

Será que os versos de Luiz Coronel para esse livro foram pensados para virarem letras de canções?

Tirem suas conclusões a partir do trecho abaixo:

“Contemplo o rosto de Neto,

Entre vultos na galeria.

Por persianas entreabertas,

o passado dá bom dia.”

As inscrições para o edital terminam no dia 20 de agosto e as encenações devem acontecer até novembro. Cerca de dois meses para fazer arranjo, coreografias, ensaios e todos os detalhes envolvidos numa produção desse porte. Quem será que vai se aventurar nessa adaptação?

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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