Para quebrar o sistema, os defensores de ideais antidemocráticos resolvem colocar tanques nas ruas. Ou lutam por coisas estranhas, como a volta do voto impresso em meio à uma grave crise sanitária. Também tem quem prefira criticar os que alimentam os miseráveis e apoiar os mais ricos durante uma pandemia. Mas ainda bem que a sociedade brasileira não é composta apenas por pessoas assim. 

Para realmente quebrar o sistema

Ainda acredito que a maioria da população tem empatia e compaixão. Por isso, a ação direta da sociedade civil é tão importante em diferentes esferas sociais. Nesse sentido, um instrumento tem sido cada vez mais utilizado para manter projetos das mais diferentes áreas. Entre elas, a  Comunicação. É o financiamento coletivo, também conhecido como crowdfunding, uma forma de dar suporte para a criação ou manutenção de iniciativas de interesse coletivo.

A Arte de Pedir

Em um mundo tão acostumado a falsas aparências e demonstrações de status muitas vezes enganosas, criar um financiamento coletivo é reconhecer publicamente a necessidade de apoio. É admitir a necessidade de recursos externos para que determinado projeto comece ou permaneça em atividade. Uma das precursoras do uso dessa ferramenta foi a cantora e ícone indie Amanda Palmer. No livro A arte de pedir, ela explica os princípios do financiamento coletivo: 

“Crowdfunding, para quem não conhece, é uma maneira de arrecadar fundos para iniciativas […] pedindo para o povo (Crowd) contribuir numa grande vaquinha virtual (Funding). […] A própria existência do crowdfunding apresenta a todos nós um leque de perguntas mais profundas: Como pedimos ajuda uns aos outros? Quando podemos pedir? Quem pode pedir?” 

Ao arrecadar 1 milhão de dólares com sua campanha, Amanda Palmer deparou-se com outro problema:

“[…] meus financiadores — quase 25 mil pessoas — vinham seguindo minha história pessoal fazia anos. Ficaram empolgados em poder ajudar e incentivar minha independência frente às gravadoras. Mas, além dos telefonemas aflitos de jornalistas que nunca tinham ouvido falar de mim (o que não admira, pois eu jamais recebera uma única linha na Rolling Stone), perguntando por que todo aquele povo estava me ajudando, fiquei surpresa com algumas das reações negativas a esse sucesso. Ao lançar minha campanha, acabei entrando num debate cultural mais amplo que já vinha se arrastando e questionava se o crowdfunding era sequer admissível; alguns críticos estavam desdenhando a prática como uma forma grosseira de ‘mendigar na rede’. Pelo jeito, era feio pedir.”

A sinceridade em questão

Mas será mesmo feio pedir, como comenta Amanda Palmer? Depende muito da proposta e da relação com o público envolvido, eu diria. Como produtora cultural, já dei suporte para a realização de alguns projetos artísticos por meio de financiamento coletivo e o resultado foi muito gratificante. Porém, como jornalista diretamente envolvida em uma iniciativa, é a primeira vez. 

Sim, porque o Vós lançou um plano de assinaturas recentemente. A ideia é jogar limpo com vocês. Não temos patrocinadores nem mecenas. Ou seja, os conteúdos que oferecemos são produzidos sem um ganho financeiro direto. No caso da coluna Voos Literários, eu sempre coloco os links das obras citadas para facilitar o acesso aos livros mencionados. Mas não há obtenção de lucro com isso, por exemplo. Meu retorno como colunista é, até o momento, ter a satisfação pessoal e profissional de escrever a respeito de temas que considero relevantes, com total liberdade e autonomia. 

Como quebrar o sistema? 

Para continuarmos na luta pela mudança da conjuntura atual, precisamos do apoio de quem está no mesmo lado da nossa trincheira. No caso, no extremo oposto de quem colocou hoje tanques nas ruas para tentar intimidar por meio de sua usual covardia. Vocês já sabem, mas é sempre bom reforçar: Fora, Bolsonaro!

Imagem: Pedro França/Agência Senado

Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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