Há quase 60 anos, em 12 de dezembro de 1962, Patrícia Galvão, a Pagu, partia desse plano. Porém, seu legado permanece, tanto suas obras literárias como pela sua trajetória marcada por posturas arrojadas e corajosas. Destacarei 10 momentos em que essa escritora, nascida em 1910, demonstrou a grandiosidade de sua personalidade, que a levou a ser pioneira em diversas áreas.

  1. Estilo à frente do seu tempo – No auge de seus 20 anos, Patrícia Galvão chamava a atenção pelas roupa ousadas, maquiagem acentuada e cabelo arrepiado. Ela era apenas uma estudante nessa época, mas já destacava-se das mulheres de sua geração por usar minissaia e roupas com transparências. Além disso, fumava e falava palavrões. Foi nessa época que ganhou o apelido de Pagu, por um equívoco do poeta modernista Raul Bopp, que achava que seu sobrenome era Goulart.
  2.  Abandona a imagem de musa do modernismo e torna-se ativista política – Muito jovem, Pagu torna-se uma protegida dos modernistas Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade. Virou uma espécie de musa inspiradora do movimento modernista. Até que Oswald separa-se de Tarsila para ficar com Pagu, um escândalo na tradicional sociedade paulistana. Porém, ao invés de acomodar-se na situação de mulher casada com um escritor famoso, ela encontra no ativismo político um ideal de vida e acaba levando Oswald a também interessar-se pelo comunismo
  3. Viveu um relacionamento aberto com Oswald de Andrade – O casamento com Oswald, que durou até 1935, é marcado pela sinceridade completa, em que a infidelidade é tolerada. Porém, quando Pagu engravida do primeiro filho, precisa lidar com os relatos de Oswald sobre as relações com outras mulheres. Ela revela seu sofrimento a respeito da situação no livro Paixão Pagu (A autobiografia precoce de Patricia Galvão) , um romance epistolar dirigido a seu segundo marido, o escritor Geraldo Ferraz.  Casou-se com Ferraz em 1941 e ficou com ele até sua morte, em uma relação marcada pela cumplicidade e confiança. Juntos, escreveram, em 1945, o romance A Famosa Revista, uma crítica ao Partido Comunista, com o qual ambos haviam rompido.
  4. Vira operária por convicções ideológicas – As ideias marxistas tornam-se uma convicção tão profunda em Pagu, que ela resolve abandonar a área literária e tornar-se uma proletária no sentido estrito da palavra. Entre outros empregos, foi operária em duas fábricas
  5. É considerada a primeira presa política do Brasil republicano – Sua prisão ocorreu em 1931, durante um comício com trabalhadores na Praça da República. Antes de sua prisão, amparou nos braços o estivador negro Herculano de Souza, morto devido à repressão policial. Esse incidente é citado por Rita Lee na letra da música “Pagu”, no verso “Sou Pagu indignada no palanque”.  Ao longo de sua vida, Pagu foi presa 23 vezes devido às suas ligações com o comunismo
  6. Publicou o primeiro romance proletário brasileiro – Depois de sua experiência como operária, Pagu escreve Parque Industrial, publicado sob o pseudônimo de Mara Lobo. O romance não agradou o Partido Comunista, que o considerou “pornográfico e feminista”.
  7. É considerada a primeira mulher cartunista do país – Na década de 1930, publicou no jornal O Homem do Povo, de Oswald de Andrade, as tirinhas Malakabeça, Fanika e Kabeluda. Ela criava os desenhos e os argumentos, de conteúdo subversivo e feminista. 
  8. É jornalista em plena década de 1940 – Pagu sobreviveu durante grande parte de sua vida como jornalista, tendo dedicado-se de forma mais sistemática a publicações na imprensa a partir da década de 1940. Vale lembrar que, nessa época, a maior parte das mulheres era dona de casa e poucas dedicavam-se a profissões dominadas por homens, como era o jornalismo nesse período. Sua obra jornalística está sendo estudada na Universidade de Yale e deve ser publicada em formato de livro, conforme informações divulgadas em seu site oficial.
  9. Primeira escritora brasileira a publicar literatura policial  – Sob o pseudônimo de King Shelter, publicou contos policiais na década de 1940. Outra área predominantemente masculina que Pagu adentrou sem pudores. Seus contos policiais, publicados originalmente na revista Detective, foram reunidos e lançados, em 1998, no livro Safra Macabra.
  10. Foi candidata a deputada na década de 1950 – Ainda mantendo seu ativismo político mas fora do Partido Comunista, Pagu tenta ser deputada pelo Partido Socialista Brasileiro. Não foi eleita, mas demonstra mais uma vez sua postura feminista, já que em pleno século 21 ainda são poucas as mulheres na política. No Congresso Nacional do século 21 aproximadamente 10% do total de eleitos são mulheres,

Além dos livros citados, usei como referência para balizar esse texto a dissertação de mestrado Um Caminho à Liberdade: O Legado de Pagu, de Sarah Pinto de Holanda,  do Programa de Pósgraduação em Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, de 2014.  

Algumas homenagens a Pagu:

  • Pagu Vida e Obra, livro organizado por Augusto de Campos 
  • Eternamente Pagu, de 1988, longa-metragem dirigido por Norma Bengell
  • Pagu, música de Rita Lee

Imagens: Reprodução/Internet

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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