A primeira vez que vi circulando na Internet uma lista  dos livros que seriam retirados das bibliotecas escolares de Rondônia por determinação da Secretaria Estadual de Educação, me chamou a atenção a pluralidade dos autores censurados. Machado de Assis, Mario de Andrade, Rubem Fonseca, Caio Fernando Abreu… As diversas matérias que li a respeito do assunto não deixavam muito claro o motivo exato que levaria o governo de Rondônia a considerar as obras inadequadas. Uma das possibilidades aventadas pela própria secretaria estadual de educação era de que o conteúdo dos livros estava sob suspeita de conter palavrões. 

A determinação não chegou a valer, mas na ausência de ampla divulgação como aconteceu, provavelmente a retirada dos livros ocorresse sem grande alarde.  Vale lembrar que o governador Marcos José Rocha dos Santos foi eleito pelo PSL em 2018, o então partido do presidente Jair Bolsonaro. Coronel Marcos Rocha é conhecido por seu conservadorismo e religiosidade. A Secretaria de Educação agora nega a tentativa de proibição.

Mas vamos à lista e os possíveis motivos para que os livros fossem eventualmente censurados. Separei por autores, porque Rubem Fonseca, por exemplo, teve várias de suas obras consideradas sob “suspeita.”

Caio Fernando Abreu

A obra em questão é O Melhor de Caio Fernando Abreu, uma coletânea com contos e crônicas do autor, que mesclou em seus textos a temáticas queer e críticas políticas. Nem precisa ter palavrão, só o fato do escritor ser homossexual e ter morrido de HIV já seria o suficiente para despertar a desconfiança dos conservadores. Não li essa coletânea mas quem acompanha a coluna sabe que eu sou super fã de Caio F. (Aqui tem o texto mais recente que escrevi sobre o autor).

Mario de Andrade

Macunaíma, o Herói Sem Nenhum Caráter é um dos clássicos da literatura brasileira. Um dos expoentes do Modernismo Brasileiro, Macunaíma na época de sua publicação foi criticado pelo fato de ter exaltado um anti-herói. Até onde eu me lembre das leituras que fiz na faculdade de Letras da UFRGS, a obra não contém“palavras de baixo calão. Meu palpite para ter ido parar na lista dos proibidões é o subtítulo do livro, que pode ter despertado a ideia de algo subversivo.

Ferreira Gullar

Um dos grandes poetas brasileiros, ficou conhecido (e reconhecido)  pelos aspectos sociais de sua obra. O livro Poemas Escolhidos reúne textos justamente com essa temática. Comunista e exilado durante a ditadura militar no Brasil, Ferreira Gullar deu uma guinada para a direita, nos anos 90, mantendo-se nesse espectro político até falecer, em 2016. Essa mudança de pensamento ideológico do poeta não deve ter sido acompanhada pela secretaria de Educação de Rondônia, que deve ter considerado a obra esquerdista.

Carlos Heitor Cony 

O escritor e jornalista, falecido em 2018, teve 8 livros na lista dos que seriam censurados: A Volta Por Cima, O Irmão Que Tu Me Deste, O Ventre, Rosa Vegetal de Sangue, O Mistério da Moto de Cristal (em parceria com Ana Lee), Mil e Uma Noites. O Harém Das Bananeiras e O Ato e o Fato. Cony chegou a apoiar o golpe militar em 1964 e arrependeu-se, tornando-se um oponente aberto ao regime, tendo sido preso por pelo menos seis vezes, acusado de subversão. Da lista, li apenas O Ventre, que é um soco no estômago de tão forte e duro, contendo um enredo um pouco escatológico. Chama a atenção na lista o livro O Mistério da Moto de Cristal que é uma obra do gênero mistério destinado ao público jovem. Deve ter entrado na mira dos censores do século 21 apenas pelo fato de ter sido escrita por alguém que foi reconhecidamente contra a ditadura militar. 

Aurélio Buarque de Hollanda

O linguista, professor e tradutor citado na lista é ninguém menos que o responsável pelo dicionário de língua portuguesa mais popular no Brasil, o Aurélio (também com a versão para estudantes, conhecida como Aurelinho). O livro colocado como suspeito é Mar de Histórias, uma antologia de contos da literatura universal. Chama a atenção o fato de haver a observação de que “todos os volumes” deveriam ser retirados das bibliotecas. A antologia tem cinco volumes e me parece pouco provável que todos contivessem conteúdo inadequado para os estudantes. Meu palpite é que o sobrenome Buarque ligou o radar antiesquerda. Ao contrário do que muitos acreditam, Aurélio era apenas um primo distante do pai de Chico Buarque, não sendo parente próximo do famoso compositor.

Carlos Nascimento Silva

O premiado escritor é professor universitário aposentado e mestre em Literatura. Seu livro apontado como inadequado é A Menina de Cá, com contos que abordam o desencanto afetivo em relacionamentos amorosos. Pode ter sido visto com uma crítica à instituição do casamento. Se formos levar em conta a trajetória bibliográfica de Nascimento Silva, escreveu dois livros com temática política: Cabra Cega, em que aborda sem maniqueísmos o período da ditadura militar no Brasil. e Desengano (reconhecido como melhor romance pelo Jabuti, o maior prêmio literário do país), com enredo que tem como pano de fundo o período que vai dos presidentes Getúlio Vargas até João Goulart. 

Rubem Fonseca

O campeão na lista dos proibidões de Rondônia é considerado um dos maiores escritores brasileiros em atividade. Pontuou 19 em uma lista com um total de 43 livros: Diário De Um Fescenino, Bufo& Spallanzani, O Melhor De Rubem Fonseca, Secreção Excreções E Desatinos, Os Prisioneiros, Agosto, Amálgama, O Doente Moliére, A Coleira Do Cão, O Seminarista, Histórias Curtas, Histórias De Amor, O Buraco Na Parede, Feliz Ano Novo, Calibre 22, Mandrake A Bíblia E A Bengala, Lucia Mccartney, Romance Negro E Outras Histórias. Algumas de suas obras contém enredos com violência e sexo, mas está longe de ser um escritor pornográfico. Rubem Fonseca também ficou conhecido por mesclar fatos históricos com ficção, como no livro Agosto. Demonstrando o quanto essa tentativa de censura de 2020 conversa com os censores do regime militar, Feliz Ano Novo também foi proibido na década de 1970, por conter “sexo, violência e conflito de classes”.

Ivan Rubino Fernandes

Ivan é filho do célebre escritor e cartunista Millôr Fernandes, autor do Guia Millôr Da História Do Brasil. Suponho que Ivan Rubino Fernandes esteja na lista porque ele é o herdeiro mencionado na ficha técnica desse livro. Millôr foi um fervoroso combatente da ditadura militar, tendo sido um dos fundadores do jornal O Pasquim. O livro considerado inadequado é uma obra que traça um panorama da história do Brasil na visão do escritor, de Pedro Álvares Cabral ao governo Lula, também abordando temas como corrupção, miséria e cidadania. 

Nelson Rodrigues

O polêmico escritor e cronista sempre causou desconforto entre os mais conservadores, com seus textos recheados de menções a sexo e infidelidades. O curioso é que Nelson Rodrigues era um reacionário e defensor da ditadura , até ter seu filho torturado pelos militares. Na lista, estão O Beijo no Asfalto (o beijo entre dois homens deve ter incomodado os responsáveis pela tentativa de censura), O Melhor de Nelson Rodrigues e A Vida Como Ela É, uma coletânea de textos que com muitas histórias de traições.  A graphic novel Vestido de Noiva, baseada na obra de Nelson Rodrigues, também foi apontada como inadequada e consta na lista.

Sonia Rodrigues

A filha de Nelson Rodrigues também está na famigerada lista, por seu romance Estrangeira. Doutora em literatura, escreveu até o momento 28 livros de ficção, grande parte voltados ao público jovem. Em Estrangeira, o enredo é feito a partir dos relatos em um blog fechado ao acesso público, em que a autora tem um único leitor: seu ex-namorado. Minha suposição é que as dúvidas e angústias sobre relacionamentos podem ter desagradado os conservadores no poder em Rondônia.

Rosa Amanda Strausz

Rosa é jornalista e escritora e teve seu nome citado por ser a organizadora da obra 13 dos Melhores Contos de Amor da Literatura Brasileira. A obra é uma coletânea com autores como Machado de Assis, Luis Fernando Verissimo, Marina Colasanti, Caio Fernando Abreu e Carlos Drummond de Andrade. Minha aposta é que alguns contos podem ter alguma dose de erotismo. Ou então, o número 13 e a capa vermelha despertaram a ira dos antipetistas. (Contém ironia. Ou não. Vai saber…)

Machado de Assis

Acho que esse grande escritor brasileiro dispensa apresentações. Me causou muita surpresa ele ter sido mencionado, pois seus romances e contos são uma unanimidade no meio acadêmico e fora dele. Memórias Póstumas de Brás Cubas inovou ao apresentar um narrador além-morte, que interage com os leitores e faz comentários sobre sua vida. É considerado um marco na literatura nacional e inaugura o movimento do Realismo literário no Brasil. Meu palpite para estar na lista: o narrador já estar morto (inadequado do ponto de vista religioso), o tom pessimista (“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”) ou o fato de ter Cuba no nome. (Na época da ditadura militar, casos semelhantes ocorreram.)

Franz Kafka

Um dos poucos estrangeiros entre tantos brasileiros, Kafka teve sua obra O Castelo no radar do governo de Rondônia. É um romance longo, de cerca de 400 páginas, e de difícil leitura e interpretação, como outras obras kafkanianas. Aborda a história de K., agrimensor contratado para trabalhar no tal castelo do título por um conde. O personagem sempre é impedido de entrar no local pelos motivos mais diversos. Entre muitas possibilidades de leitura, está a de uma crítica à burocracia. 

Euclides da Cunha

Outro clássico considerado inadequado em Rondônia, Os Sertões narra a luta entre o Exército e os seguidores de Antonio Conselheiro, em Canudos, interior da Bahia. Jornalista que acompanhava como repórter a batalha, Euclides da Cunha destacou a valentia dos sertanejos. (Em uma das minhas colunas,  faço algumas comparações do livro com o filme Bacurau. Confira aqui.) Talvez tenha sido alvo da tentativa de proibição por se mostrar favorável aos que lutavam contra o Exército, ainda que no século 19.

Edgar Allan Poe

O livro Contos De Terror De Mistério E De Morte é uma coletânea da obra desse escritor renomado mundialmente e considerado pai do gênero policial. O livro ainda inclui o poema O Corvo, uma das obras-primas do autor norte-americano. Imagino que a qualidade do texto não tenha entrado na análise. A temática ligada ao extraordinário e ao além-morte pode ter sido contrária à visão religiosa dos ocupantes do governo.

Rubem Alves

Por último, mas não menos relevante nessa abordagem sobre tentativa de censura, está a observação que consta no final da lista: “Todos os livros do Rubem Alves devem ser recolhidos”. Por um lado, não me causa espanto a perseguição a Rubem Alves, por ter sido um dos fundadores da Teologia da Libertação e também por ter seu nome ao lado de Paulo Freire na pedagogia brasileira. Porém, Rubem Alves escreveu muitos livros para o público infantojuvenil, o que tornaria natural a presença de livros de sua autoria em bibliotecas escolares. A arbitrariedade da observação de que “todos” os livros deveriam ser recolhidos transparece a clara tentativa de censura a um autor renomado mundialmente.

Como diria Rubem Alves:

“Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas.

Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o vôo.”

Fiquemos atentos às tentativas de censura. Com a desculpa de proteção, querem mesmo é tirar a liberdade e o senso crítico das crianças e adolescentes. Não passarão!!

Imagem: Michal Jarmoluk/Pixabay 

 

 

 

 

   

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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