Muito já se falou sobre a postura do “Você sabe com quem está falando?” em fiscalizações de cumprimento de decretos para conter o avanço do novo coronavírus. Nos episódios mais simbólicos, o do engenheiro que se recusava a ser chamado de cidadão e o do desembargador que tratava como analfabeto o guarda municipal, os elitistas se deu mal. A mulher do engenheiro foi demitida do emprego público que ocupava no Rio de Janeiro – já que a fala grosseira partiu dela – e descobriu-se depois que ele nem estava trabalhando na área, tendo recorrido ao auxílio emergencial do governo para sobreviver.  Elitistas arrogantes e de fachada, nesse caso. Já o desembargador, que ao longo de décadas envolveu-se em diversas situações de abuso de autoridade, viu-se obrigado a dar desculpas públicas para os guardas municipais atingidos por seus insultos. 

A ATUALIDADE DE LIMA BARRETO

Esses exemplos de comportamentos elitistas não são casos isolados decorrentes do momento atual. A pandemia apenas colocou em evidência um comportamento recorrente na elite brasileira e que, certamente, não é recente. Um registro literário da arrogância decorrente da titulação e do consequente status derivado disso está no livro Os Bruzudangas, de Lima Barreto, lançado pouco depois de sua morte, em 1922. A obra está disponível, na íntegra, no site Domínio Público.

As crônicas sobre um país ficcional lembram muito o Brasil do século 21:

“A aristocracia doutoral é constituída pelos cidadãos formados nas escolas, chamadas superiores, que são as de medicina, as de direito e as de engenharia. Há de parecer que não existe aí nenhuma nobreza; que os cidadãos que obtêm títulos em tais escolas vão exercer uma profissão como outra qualquer. É um engano. Em outro qualquer país, isto pode se dar; na Bruzundanga, não. Lá, o cidadão que se asma de um título em uma das escolas citadas, obtém privilégios especiais, alguns constantes das leis e outros consignados nos costumes. O povo mesmo aceita esse estado de coisas e tem um respeito religioso pela sua nobreza de doutores.”

Como podemos perceber no trecho acima, Lima Barreto foi um grande crítico social de sua época. Em muitas de suas obras, denunciava que o fim do Império e a Primeira República não beneficiaram as camadas mais pobres da população, ao manter privilégios de militares e da aristocracia brasileira. Cem anos depois, pouca coisa parece ter mudado em Bruzundanga.

Mas seguimos na luta para virar esse jogo e fazer os elitistas respeitarem o artigo quinto da Constituição Brasileira: 

Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza.
PARA IR ALÉM

Machado de Assis também foi outro grande crítico do elitismo na sociedade brasileira. O jurista e sociólogo Raymundo Faoro fez uma  análise da obra machadiana por essa perspectiva no livro Machado de Assis – a pirâmide e o trapézio.

Imagens: Reprodução/Internet

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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