Estou pronto” – disse finalmente o rei, completamente nu. “Acham que esta roupa me assenta bem?” E novamente mirou-se no espelho, a fim de fingir que se admirava vestido com a roupa nova. E os camaristas, que deviam carregar o manto, inclinaram-se fingindo recolhê-lo do chão e logo começaram a andar com as mãos no ar, carregando nada, pois também eles não se atreviam a dizer que não viam coisa alguma. À frente o rei andava orgulhoso e todos os que o assistiam das ruas e das janelas, exclamavam: “Como está bem vestido o rei! Que cauda magnífica! A roupa assenta nele como uma luva!!!” Nunca na verdade a roupa do rei alcançara tanto sucesso!! Até que subitamente uma criança, do meio da multidão gritou: O rei está nu!!! “Ouçam! Ouçam o que diz esta criança inocente!” –observou o pai a quantos o rodeavam. Imediatamente o povo começou a cochichar entre si. “O rei está nu! O rei está nu!!” –começou a gritar o povo. E o rei ouvindo, fez um trejeito, pois sabia que aquelas palavras eram a expressão da verdade, mas pensou: “O desfile tem que continuar!!” E, assim, continuou mais impassível que nunca e os camaristas continuaram, segurando a sua cauda invisível.”

O trecho acima é de uma das mais diversas versões existentes de A Roupa Nova do Rei, publicado em 1837. Esse clássico de Christian Andersen faz parte do gênero contos de fada, histórias originalmente escritas para adultos que foram adaptadas para crianças com o surgimento da literatura infantil.

Ao longo dos anos, essas histórias entraram numa espécie de inconsciente coletivo ocidental, por terem sido tantas vezes contadas e recontadas em livros e filmes. O que pode acontecer a partir disso é a criação de novos textos a partir desses outros  já existentes. O diálogo entre eles é a chamada intertextualidade. Esse recurso leva o leitor a ativar os seus conhecimentos do mundo, ao recorrer à memória para construir o sentido do texto. Dessa forma, a intertextualidade enriquece a leitura, no momento em que são percebidas diferenças e semelhanças entre textos de origem e suas recriações.

.

Voltando à Roupa Nova do Rei, permitam-me recriar mais uma vez essa história.

.

Digamos que o Rei fosse uma representação de uma grande parcela da população que acredita na candidatura de extrema-direita que está à frente nas pesquisas do segundo turno das eleições  presidenciais brasileiras.

Esses leitores estão encantados com a retomada da moralidade na política e o combate à corrupção propostos por Jair Bolsonaro. Essa é a roupa nova do Rei. O plano de governo do candidato é pouco crível, com informações equivocadas e com propostas nada claras. Mas os nossos reis do século 21 estão lá, nus, e jurando que estão vestindo a melhor candidatura.

Pode ser que ainda reste tempo para acreditarem em alguém que os alerte para o fato, como a criança tenta fazer no clássico conto de fadas. Porém, como vemos no trecho acima, o Rei prefere fingir que não percebeu ter sido enganado pelos tecelões que criaram a roupa imaginária. Continuou impassível seu desfile, tentando manter as aparências. Já em um pleito, o que normalmente acontece com eleitores arrependidos é a amnésia seletiva. Ou vocês conhecem alguém que admite publicamente (e com orgulho) ter votado em Fernando Collor de Mello para presidente da República?

Imagem: Reprodução da Internet

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

Comentários no Facebook