O orgulho dele não me ofende tanto – disse Miss Lucas – como o orgulho em geral, porque existe um motivo. Não é de admirar que um rapaz tão distinto, com família, fortuna, tudo a seu favor, tenha de si mesmo uma alta opinião. Se posso exprimir-me assim, ele tem o direito de ser orgulhoso.

– Isto é bem verdade – replicou Elizabeth -, e eu perdoaria facilmente o seu orgulho se ele não tivesse mortificado o meu.

– O orgulho – observou Mary, que se gabava da solidez das suas reflexões – é um defeito muito comum, creio eu. Por tudo o que tenho lido, estou mesmo convencida de que é muito comum, que a natureza humana manifesta uma tendência muito acentuada para o orgulho, que são pouquíssimos os que não alimentam esse sentimento, fundados em alguma qualidade real ou imaginária! A vaidade e o orgulho são coisas diferentes, embora as palavras sejam frequentemente usadas como sinônimos. Uma pessoa pode ser orgulhosa sem ser vaidosa. O orgulho se relaciona mais com a opinião que temos de nós mesmos, e a vaidade, com o que desejaríamos que os outros pensassem de nós.”

A frase acima é do clássico de Jane Austen, Orgulho e Preconceito. Um livro que aborda as diferenças de classe nas relações interpessoais na Inglaterra, no início do século XIX.  Mas qual a relação desse romance com o Brasil do século 21?

Vivemos há alguns anos em uma sociedade dividida entre orgulho e o preconceito. Enquanto a direita conservadora apega-se cada vez mais a conceitos preconceituosos, relativizando racismo, LGBTfobia e machismo, parte dos militantes do espectro mais à esquerda, em especial os intelectuais, parece não se dar conta da vaidade e do orgulho excessivos emanados em seus discursos.  

Em um país onde menos de 10% de seus habitantes conseguem completar o ensino superior, é preciso ter cuidado ao atribuir inteligência apenas a quem teve acesso às universidades. Não estou aqui dizendo que devemos ignorar a ciência e desvalorizar a educação como o governo Bolsonaro faz.  Porém, precisamos ficar atentos ao comportamento de militantes de esquerda que são favoráveis ao #Lulalivre e defendiam um operário no poder, mas que em, seu dia a dia, demonstram a vaidade de acharem-se superiores às pessoas que não tiveram acesso ao mundo acadêmico.

Como diz uma frase compartilhada em redes sociais:

“Não adianta ter doutorado e não cumprimentar o porteiro.”

Por mais duro que seja para nós de esquerda reconhecermos, é inegável que Bolsonaro e seus seguidores no PSL conseguiram mobilizar mais o eleitorado do que a esquerda nas últimas eleições. Um dos motivos é justamente a dificuldade de comunicar-se com a população, como alertou Mano Brown em um comício de Fernando Haddad: 

“A comunicação é a alma. Se não está conseguindo falar a língua do povo vai perder mesmo. Falar bem do PT para a torcida do PT é fácil. Tem uma multidão que não está aqui que deveria ser conquistada”.

Para quem não é filiado a um determinado partido, restam as relações pessoais. Por isso, precisamos eliminar o orgulho e  elitismo intelectual do nosso cotidiano, se quisermos uma mudança no cenário político atual e a diminuição real das desigualdades sociais.

Foto: Cena do filme Orgulho e Preconceito (2005)

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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