Dois tipos de crime nos afetam mais que qualquer outro: aqueles nos quais as vítimas são crianças e aqueles nos quais as crianças são os agressores. No primeiro caso, choramos os inocentes; no segundo, o equívoco de que crianças são inocentes. Tiroteios em escolas são os crimes mais chocantes de todos porque envolvem ambos os problemas, e, entre todos os tiroteios escolares, o de Columbine permanece como a principal referência, o modelo com o qual todos os outros estão em débito.”

Andrew Solomon, na introdução do livro O Acerto de Contas de Uma Mãe – A Vida após a Tragédia em Columbine, de Sue Klebold (mãe de um dos atiradores da escola norte-americana.)

O massacre promovido por um adolescente e um jovem adulto em uma escola estadual em Suzano (SP), com 10 mortos, trouxe à tona tristeza, perplexidade, piedade e opiniões controversas.

O crime foi inspirado no episódio da escola norte-americana Columbine, conforme investigações da polícia brasileira. Nos Estados Unidos esses ataques são mais comuns do que em nosso país, isso é fato. Ainda assim, não é a primeira vez que isso acontece por aqui. Houve casos semelhantes no Realengo, no Rio de Janeiro, e em Goiânia.

Após a comoção gerada pelo fato, repercutido a exaustão na Internet, na TV e nos jornais, começam a se buscar os motivos para tamanha violência. Bullying? Influência de games violentos? A cultura armamentista defendida pelo atual governo?

Mas foi um texto traduzido do inglês e divulgado sem autoria nas redes sociais que mais me chamou a atenção, por propor uma reflexão diferente.

Fosse o bullying o único motivo desse tipo de massacre, por que os crimes em sua imensa maioria são cometidos por integrantes do sexo masculino, heterossexuais e brancos?

Gays e travestis não sofrem bullying por acaso? E as adolescentes que têm fotos nuas vazadas na Internet porque não saem caçando armadas os responsáveis por esses crimes virtuais? E os jovens negros que passam por situações constrangedoras de racismo e opressão – episódios tão naturalizados a ponto de ter gente negando a existência de preconceito racial no Brasil – por que não viram atiradores seriais como os de Columbine?

Mas a opinião pública precisa apontar motivos aparentes. Por isso, em tragédias como a de Suzano culpar os pais dos responsáveis pelos assassinatos é a saída mais simplista. E essa é uma das motivações para Sue Klebold tenha resolvido escrever um livro sobre como foi lidar com a situação terrível de ser a mãe de Dylan, um dos assassinos de Columbine:

Nunca saberei se poderia ter evitado o papel terrível de meu filho na carnificina que aconteceu naquele dia, mas passei a ver de forma diferente as coisas que gostaria de ter feito. Pequenas coisas, fios na grande tapeçaria de uma vida familiar normal. Porque, se alguém tivesse espiado nossa vida antes de Columbine, creio que teria visto, mesmo com as lentes mais potentes, algo absolutamente comum, nada diferente das vidas que acontecem em inúmeras casas pelo país.

[…]

No que se refere a questões de saúde cerebral, muitas de nossas crianças são tão vulneráveis hoje quanto as crianças de cem anos atrás eram às doenças infecciosas. Não é raro, como aconteceu no nosso caso, a suscetibilidade delas passar despercebida. Quer uma criança entre em colapso em um cenário horrível, quer o potencial dessa criança para a felicidade e a produtividade não se cumpra, essa situação pode ser tão desconcertante quanto dolorosa. Se não acordarmos para essas vulnerabilidades, o terrível preço a pagar continuará aumentando. E o preço será pago não só em tragédias como a de Columbine, Virginia Tech, Sandy Hook ou ucsb, mas em inúmeras tragédias menores e em ebulição que se apresentam todos os dias na vida familiar de nossos colegas de trabalho, amigos e entes queridos.”

Acredito que Columbine sirva como uma inspiração macabra para quem se identifica com atiradores brancos e heterossexuais. Para quem enxerga como heroísmo o ato covarde de sair matando aleatoriamente quem cruzar seu caminho.  O que precisa ser analisado com afinco por especialistas e autoridades é a distorção que leva à busca por essa suposta fama póstuma em massacres como o de Suzano.

E pensar sobre o perigo potencial da equação masculinidade frágil. baixa tolerância à frustração e acesso a armas.

Imagem:  Stephen Agnew/Reprodução Internet

 

 

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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