Quando voltamos a Nova York, pusemos um anúncio no Village Voice procurando um guitarrista. A maioria dos guitarristas que apareceu já parecia saber o que queria fazer, ou como gostaria de soar, e quase nenhum deles, homens, muito interessado em ter uma garota como líder. “

Assim Patti Smith descreve, na autobiografia Só Garotos, o início de sua carreira musical como uma das precursoras do punk no início da década de 1970. O panorama para as mulheres no rock no século 21 infelizmente ainda guarda semelhança com essa época. Os roqueiros parecem poucos interessados em perceber que lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive liderando uma banda.

A poetisa do punk, como ficou conhecida, sempre rompeu barreiras. Como em seu estilo de vestir, com seu modo visceral de expressar-se na escrita, nas artes visuais e na música. Também com  sua relação nada convencional com o primeiro marido, o fotógrafo Robert Mapplethorpe, que, depois do fim do relacionamento amoroso com ela, assumiu sua homossexualidade mas manteve-se como uma figura querida e importante em sua trajetória artística e pessoal, até sua morte, em 1989.

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Conforme relata  em Só Garotos, Patti Smith nunca se imaginou como uma cantora e não compreendia porque seu estilo chamava a atenção. Como na vez em que resolveu cortar seu próprio semelhante a um dos integrantes da banda Rolling Stones:

Meu cabelo de Keith Richards era de fato um ímã de significados. Pensei nas garotas que conheci na época da escola. Elas sonhavam em ser cantoras e acabavam virando cabeleireiras. Eu não sonhava com nenhuma das duas vocações, mas nas semanas seguintes acabaria cortando o cabelo de muita gente e cantando no La MaMa. Alguém no Max’s [bar famoso no underground novaiorquino da época] me perguntou se eu era andrógina. Perguntei o que era aquilo. ‘Você sabe, como Mick Jagger.’ Imaginei que deveria ser algo interessante. Achei que a palavra fosse alguma coisa ao mesmo tempo bonita e feia. O que quer que significasse, com um simples corte de cabelo, milagrosamente, virei andrógina da noite para o dia.”

O livro Só Garotos, como toda a obra bem escrita, tem várias camadas e possibilidades de análise. Hoje, escolhi, em homenagem ao Dia Mundial do Rock, celebrado no Brasil em 13 de julho, dar enfoque à força e ao pioneirismo de Patti Smith na música. Após se recuperar emocionalmente de perdas como a de Mapplethorpe, do marido Fred Smith (ex-guitarrista da banda de rock MC5) e de um de seus irmãos, Patti retomou a carreira artística. 

E os brasileiros poderão conferir ao vivo o ativismo político e as músicas da artista no Popload Festival, em 15 de novembro, Como uma fervorosa defensora das causas ambientais, já podemos imaginar que seu show deve trazer críticas ao governo brasileiro. Com toda essa história de vida, espero que esse posicionamento não surpreenda espectadores desavisados, como aconteceu recentemente com Roger Waters.

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Com seus 72 anos, Patti Smith segue sendo um exemplo para mulheres no mundo inteiro

Longa vida à poetisa do punk

Bônus: Além de Só Garotos, recomendo a leitura de Linha M, livro no qual Patti Smith descreve – de forma intimista mas com lirismo – a solidão, o luto e o amor à fotografia e à poesia. Além de demonstrar ser uma inveterada fã de café e séries policiais televisivas,  Gente como a gente, sem falsos intelectualismos. 

Fotos: Reprodução/Internet

 

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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