ALERTA: O texto a seguir contêm SPOILERS sobre o filme e o livro Bird Box.

Bird Box, o filme, uma das sensações atuais da Netflix, vem dividindo opiniões e causando debates nas redes sociais, com muito memes e discussões a respeito do enredo. A principal reclamação é de o final não trazer explicações a respeito do fenômeno que leva a morte das pessoas na história.

Com tanto alarde, fui atrás do romance Caixa de Pássaros, livro de estreia do roqueiro Josh Malerman, cantor e compositor da banda High Strung. A leitura foi rápida, em apenas algumas horas, e gostei bastante do conteúdo.

Poucos dias depois, mesmo após receber diversos comentários negativos sobre o filme em uma enquete informal feita no meu perfil pessoal no Facebook, fui assistir ao longa-metragem estrelado por Sandra Bullock, em busca de comparações e analogias. 

Acabei concordando com meus amigos virtuais: o filme é fraco e com um roteiro desconexo. Além disso, existem mudanças sem justificativa em relação ao livro. Aliás, todo o andamento do enredo é diferente. Muitos personagens do filme não existem no livro, as situações que envolvem a morte da irmã da protagonista são completamente diferentes, as circunstâncias que levam os personagens a se encontrarem na casa onde se passa a maior parte da trama são distintas.

Mas a maior diferença e o que pretendo me ater nesse texto é ao ritmo. No livro, a personagem principal tem tempo para refletir e pensar no que aconteceu. As situações não se passam de forma atropelada como na adaptação cinematográfica. Os meses se passam sem que a irmã da personagem tenha morrido. As duas acompanham juntas a cobertura televisiva sobre as mortes misteriosas e também os boatos que circulam a respeito do assunto na Internet.  

A barriga de Malorie já está aparecendo. Cobertores tapam todas as janelas da casa. A porta da frente nunca fica destrancada nem aberta. Relatos de acontecimentos inexplicáveis têm surgido com uma frequência alarmante. O que antes era manchete duas vezes por semana agora acontece todos os dias. Os porta-vozes do governo  são entrevistados na TV.

Com histórias vindas de todos os cantos, do Maine à Flórida, ambas as irmãs estão tomando precauções. […] Novas histórias aparecem na Internet de hora em hora. É a única coisa sobre qual as pessoas falam nas redes sociais e o único tema abordado nas páginas dos jornais. Sites recém-criados dedicam-se inteiramente a acompanhar o assunto.

[…]

Depois de três meses vivendo como ermitãs, o pior medo de Malorie e Shannon se concretizou quando seus pais pararam de atender ao telefone. E também deixaram de responder aos e-mails.”

Logo após a perda do contato com os pais, Malorie enfrenta a morte da irmã, que ocorre dentro da casa das duas. Aparentemente, o motivo é Shannon ter resolvido olhar para a rua, o que resulta em atitudes extremas, como tirar a própria vida.

A quina da janela está exposta. Uma parte do cobertor, solta, está pendurada. Malorie desvia o olhar rapidamente. Não há movimento no quarto, e um zumbido fraco vem da TV ligada no andar de baixo.

–  Shannon.

No fim do corredor, a porta do banheiro está aberta. A luz, acesa. Malorie vai até lá. Então prende a respiração e se vira para olhar.  Shannon está no chão, o rosto virado para o teto. Há uma tesoura enfiada em seu peito. Sangue formando uma poça nos ladrilhos do chão.”

Após a morte da irmã, há a decisão da protagonista, por impulso, de sair de casa, por não conseguir enfrentar aquela situação sozinha. Ela foge, de olhos tapados, para um refúgio anunciado nos classificados, quando ainda existiam jornais em circulação em sua cidade.  Ou seja, existe um motivo para reunir um grupo de pessoas que não se conheciam antes em um determinado local, já preparado para enfrentar aquela situação-limite, com alimentos estocados, por exemplo.

Com esse enredo melhor desenvolvido no livro do que no filme, fica mais fácil de entender porque as pessoas já sabem que precisam usar vendas nos olhos ao sair nas ruas. Houve tempo para essa preparação e avisos do governo nesse sentido. Por isso, a história torna-se muito mais verossímil.

Ninguém torna-se um sobrevivente da noite para o dia. O resiliência vem aos poucos, as formas de defender-se dos perigos também. Conforme algumas análises que li por aí, o enredo de Bird Box seria na verdade uma alegoria sobre a humanidade preferir tapar os olhos para os próprios medos. Outra interpretação possível é de um enredo que trate indiretamente sobre os temas da depressão e do suicídio, que vem atingindo níveis alarmantes na atualidade.

Porém, a leitura que fiz de Caixa de Pássaros – o livro – é de uma história de coragem.

De como uma mulher sozinha com duas crianças consegue enfrentar diversas dificuldades até libertar-se do sofrimento, como remar, em um rio, de olhos totalmente fechados.

Vale esclarecer que, no livro, Tom morre junto com os outros personagens da casa, deixando Malorie como única responsável pela criação de dois bebês em meio à possibilidade de ataque a qualquer momento das tais criaturas misteriosas. Essa desconexão com a realidade pela solidão seria o motivo dela não ter dado nome às crianças, que são chamados apenas de Menina e Menino.

A história dessa mulher também pode ser interpretada como uma jornada de superação, bem o que precisamos para encarar os desafios desse ano que começa nessa terça-feira.

Não podemos esquecer que 2019 será difícil para os brasileiros que acreditam em justiça social, cidadania e direitos humanos.

Acredito, porém, que enfrentaremos esse rio caudaloso de chorume político sem precisar usar vendas. Já enxergamos os monstros e sobrevivemos. Seguiremos lutando e resistindo!

 

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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