Nesta sexta-feira, chegamos a 130 anos do fim da monarquia no Brasil. E para o espanto republicano, cá estamos nós vendo um “príncipe” brasileiro em destaque nos noticiários.

A transição para a república, em 1889, ocorreu por meio de um golpe militar e temos um governo brasileiro no século 21 que dá poder e visibilidades aos militares. Conforme análise de historiadores, o Império só caiu no Brasil por problemas de Dom Pedro II com o próprio Exército e também por não ter se aliado à Igreja Católica. No Brasil de 2019, são os evangélicos que dão as cartas. Os conservadores da época do império temiam que uma mulher assumisse o poder depois da morte do imperador, já que ele não tinha herdeiros homens. No Brasil dos anos 2010, uma mulher presidente sofreu críticas misóginas à sua atuação na política, que passavam por ofender sua aparência, fato irrelevante para homens no governo. (Alguém acha o Bolsonaro bonito? Pois ele venceu do boa pinta Haddad, mostrando que beleza não é relevante para o sexo masculino na política brasileira. Já as mulheres, são consideradas “musas” ou “dragões” e esse fato é extremamente destacado pela mídia e redes sociais.)   

Mas voltemos ao autoproclamado “príncipe” –  afinal, não vivemos mais na monarquia. O presidente Bolsonaro comentou que Luiz Philippe de Orleans e Bragança, deputado federal pelo PSL de São Paulo e descendente da família imperial, é quem deveria ter sido o vice dele na chapa para as eleições de 2018. 

O que explica o fascínio de Bolsonaro por figuras da realeza?

Recentemente, o presidente brasileiro também fez elogios ao príncipe da Arábia Saudita, dizendo que todo mundo gostaria de passar uma tarde com um príncipe, principalmente as mulheres”. Qual seria o motivo desse deslumbramento com a realeza tantos anos depois da proclamação da República?

No livro As Barbas do Imperador, de Lilia Moritz Schwarcz, podemos ter uma ideia do que a realeza evoca no imaginário popular:

Transcendendo a figura humana do rei, as representações simbólicas do poder imperial evocavam elementos de ‘longa duração’ que associavam o soberano à ideia de justiça, ordem, paz e equilíbrio. […] Talvez seja essa a razão da pouca legitimidade inicial dos símbolos republicanos, em um país ainda atrelado à eficácia e à inserção alargada dos emblemas da realeza. O fato de os ícones da República mais bem-sucedidos — como o hino e a bandeira — estarem de alguma maneira ligados à simbologia monárquica evidencia não apenas o pequeno impacto da ‘invenção de tradições’ republicanas, como sobretudo a penetração de uma simbologia imperial, para além dos marcos políticos oficiais.”

Mesmo que Luiz Philippe de Orleans e Bragança não pertença ao ramo da família que assumiria o trono no remotíssimo caso do retorno da monarquia ao Brasil,  ele é um símbolo da família imperial e demonstra ter valores ultraconservadores e reacionários. Começou a se interessar por política ao se aliar ao movimento que atuou para tirar Dilma Rousseff da presidência da República. Trabalhou forte para a eleição de Bolsonaro e, pelo menos até agora, mantém-se leal ao presidente. 

Fica a pergunta: Dom Pedro II, que preferiu se manter afastado do Exército e dos religiosos durante seu reinado no Brasil, concordaria com as decisões políticas de seu descendente? 

 

 

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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