Se o direito de falar, de ter credibilidade, de ser ouvido é uma espécie de riqueza, essa riqueza agora vem sendo redistribuída. Por muito tempo houve uma elite com audibilidade e credibilidade e uma subclasse de destituídos de voz. Com a redistribuição da riqueza, a perplexidade e a incompreensão afloram incessantemente. […] Essas vozes, ouvidas, subvertem as relações de poder.”

O trecho acima, do ensaio Uma Breve História do Silêncio, um dos capítulos do livro A Mãe de Todas as Perguntas, da autora feminista Rebecca Solnit, pode ser usado como uma analogia à tentativa de hackear o grupo do Facebook Mulheres Unidas Contra Bolsonaro (que conta hoje com cerca de 3 milhões de participantes). A iniciativa de cunho apartidário incomodou  seguidores do candidato à presidência pelo PSL. Houve, então, a invasão hacker ao grupo, logo revertida pelas administradoras. Depois, tentou-se desqualificar a iniciativa, com afirmações inverídicas de que havia sido comprado um grupo já existente e simplesmente havia sido trocado seu nome.

A verdade é que a tentativa de silenciamento não deu certo e a campanha #elenao ganhou adesão de mulhereres famosas e começa a ter engajamento no Exterior, adaptada para #nothim. Mas o que significa mulheres de diferentes partidos e ideologias estarem unidas contra uma determinada candidatura? De acordo com os eleitores de Bolsonaro, essa seria uma reação de mulheres feias, peludas e mal-amadas. Tanto é que, às pressas, foram criados grupos femininos de apoio ao candidato, em que os atributos físicos das participantes são exaltados, como se isso tivesse alguma importância dentro de um debate complexo que envolve riscos à democracia.

O movimento #elenão sem dúvida é feito por feministas, mulheres a favor de direitos iguais entre homens e mulheres e é uma contraponto direto ao discurso misógino e propagador da violência feito por Bolsonaro e seu vice general Mourão. Mas, como bem lembra a autora Rebecca Solnit, os homens também são vítimas do machismo patriarcal, sendo silenciados no que diz respeito a poderem demonstrar fraquezas e expor sentimentos:

A masculinidade é uma grande renúncia. O cor-de-rosa é apenas uma miudeza, mas meninos e homens bem-sucedidos renunciam a emoções, à expansividade, à receptividade [….] e homens que ocupam áreas masculinizadas – esportes, Forças Armadas, trabalhos exclusivamente masculinos como construção ou extração de recursos minerais – muitas vezes precisam renunciar a outras coisas mais. […] No mainstream heterossexual, as mulheres ficam com a tarefa de portar e expressar emoções pelos outros.”

O discurso que flerta com o fascismo e o ódio a mulheres, gays, negros e indígenas não está sendo combatido apenas pelas feministas. Um manifesto assinado por empresários e artistas famosos como Caetano Veloso ganhou visibilidade nos últimos dias. Quem sabe com isso uma candidatura perigosa para os rumos da nossa frágil democracia possa ser esvaziada.

Entre meus motivos para dizer “Ele Não” estão relativizar a tortura e a perseguição política ocorridas durante o regime militar, propagar fake news e destilar aos quatro ventos falas repletas de misoginia, racismo e homofobia. Por isso,  me juntarei a milhares de mulheres em um protesto  marcado para esse sábado em diversas capitais brasileiras e também no Exterior. Não nos calarão!

 

 

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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