Capitu traiu Bentinho, correto?

Até 1960, não havia qualquer dúvida sobre o enredo machadiano do livro Dom Casmurro, lançado no Brasil em 1899. Então, houve a ruptura dessa unanimidade quando a professora norte-americana Hellen Caldwell publicou o livro O Otelo Brasileiro de Machado de Assis.

Na obra, a escritora defende a personagem feminina da acusação de adultério, considerada inquestionável até então pela crítica literária nacional.

Atualmente, chega a ser banal dizer que Bentinho é um narrador não-confiável,  termo criado pelo crítico literário Wayne Booth. De forma simplificada, podemos dizer que se trata de enredos contados por um personagem de quem nós, leitores, duvidamos da credibilidade ou da sanidade. Porém, quando Hellen Caldwell divulgou sua teoria, houve quem considerasse suas ideias um absurdo, um verdadeiro disparate e até um certo desrespeito com o legado de Machado de Assis.

Transferindo a análise para o segundo turno das eleições brasileiras em 2018, não apenas no que se refere à campanha oficial dos candidatos do PT e do PSL, mas também para publicações em redes sociais, considero que temos milhões de narradores não-confiáveis.

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Os eleitores, em especial os mais fervorosos, têm sua própria versão dos acontecimentos e não se importam em nada com os alertas da mídia tradicional ou com apartes por meio de comentários contrários a suas visões de mundo

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Resta saber como fazer para os próprios eleitores perceberem que estão sendo parciais em suas análises políticas. Ou, então, teremos que aprender a lidar com essas narrativas não-confiáveis da vida real sem nos deixarmos abater. Apesar de, nesse momento, eu mesma duvidar da minha capacidade de opinar sobre o momento político atual. Seremos todos narradores não-confiáveis de nossas próprias existências?

Imagem: Reprodução de fotografia da revista argentina Caras y Caretas, de 1908

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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