Vocês já devem ter ouvido por aí a canção Strange Fruit, imortalizada na voz de Billie Holiday, mesmo que não sejam ouvintes habituais de jazz. Da minha parte, só fiquei sabendo recentemente do que se tratavam os “estranhos frutos” mencionados na música. A referência tem relação com a foto abaixo, que retrata os enforcamentos de negros nos Estados Unidos, principalmente nos estados sulistas, notoriamente racistas. Os linchamentos começaram no fim do século 19 e mantiveram-se (inacreditavelmente, eu diria) até a década de 1930.

Em 1939, Billie Holiday lançou a canção, que virou um símbolo contra a opressão aos negros norte-americanos mas enfrentou resistência de parte dos brancos, que não concordavam com o teor da música. Confira a letra completa da canção e a tradução aqui.

Aprendi isso (e muito mais) em um dos encontros da série de Audições Comentadas de Jazz, promovida pelo radialista e expert no assunto Paulo Moreira, realizada no dia 13 de setembro, no Instituto Ling. Durante o bate-papo entremeado por gravações de Billie Holiday, Moreira citou a história da canção Strange Fruit. Depois, a cantora Camila Toledo subiu ao palco e, antes de cantar essa música, leu o seguinte trecho do livro Strange Fruit: Billie Holiday e a biografia de uma canção:

Holiday cantou, sim, Strange Fruit para grandes plateias negras. […] Cantou a canção diversas vezes no famoso Apollo Theater, no Harlem. Jack Schiffmann, cuja família administrava o Apollo disse […] em suas memórias […] o que aconteceu quando ela finalmente se apresentou lá. ‘Se você a ouvisse em qualquer outro lugar, ficaria tocado e mais nada’, ele escreveu. ‘Mas no Apollo a canção assumia um profundo simbolismo. Não só você enxergava, em todo seu horror gráfico aquele “fruto” como via em Billie Holiday a esposa, a irmã ou a mãe da vítima, debaixo da árvore, quase prostrada de tristeza e fúria. Talvez se fosse essa sua índole – como era certamente a das platéias no Apollo – você visse e sentisse a agonia de outra vítima de linchamento. […] E quando ela arrancava as últimas palavras de sua boca, não havia uma única alma na platéia, negra ou branca, que não se sentisse meio estrangulada. Seguia-se um momento de silêncio pesado, opressivo, e então uma espécie de som sussurrante que eu nunca tinha ouvido antes. Era o som de quase 2 mil pessoas suspirando.”

Ainda não entendeu o que o assunto tem a ver com o momento político atual brasileiro?

Pense em relativização do racismo. Reflita sobre o questionamento da necessidade de cotas raciais em um país com uma “Lei Áurea” que condenou os negros à pobreza imediata, ao conceder uma libertação sem nenhum tipo de indenização financeira e sem facilitar o acesso à educação, moradia ou a empregos. Para os racistas brasileiras, é mera coincidência (para não dizer coisa pior) que, de 1888 para cá, a maioria da população carcerária do Brasil seja composta por negros, conforme aponta levantamento divulgado em 2017 pelo governo federal.  

E para ampliar os horizontes de quem precisa e apoiar aqueles que batalham pela Cultura em Porto Alegre (RS) que divulgo  novas oportunidades de conferir a cantora (e ativista da causa negra) Camila Toledo, com o projeto Camila e a Ponte. No dia 21 de outubro, a apresentação será no London Pub e, no dia 25, no barco Cisne Branco.

Além de homenagear lindamente as canções dessa diva do jazz, Camila também faz a leitura de trechos de outros livros além do mencionado nesse texto. Vale a pena conferir!

 

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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