O Dia Internacional da Mulher acaba favorecendo o protagonismo feminino na mídia. Tanto pela pauta de lutas por direitos das mulheres quanto por marcas e lojas tentando fazer “homenagens” – por vezes equivocadas. No meio literário, seguem as tentativas de reconhecimento das mulheres, como já escrevi aqui.

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O texto de hoje é mais um diagnóstico do apagamento de algumas mulheres em detrimento dos homens na literatura brasileira (e fora dela)

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Nessas investigações, cheguei ao ainda pouco conhecido Úrsula, escrito por Maria Firmina dos Reis e publicado em 1859. É considerado o primeiro romance abolicionista brasileiro. Foi escrito por uma mulher negra, em uma época em que poucas escritoras tinham vez na literatura nacional. Como deve ter sido a vida dessa escritora maranhense, falecida em 1917?

Dá para saber um pouco da trajetória dela através do livro Extraordinárias, Mulheres que revolucionaram o Brasil, de Aryane Cararo e Duda Porto de Souza. Resultado de uma pesquisa extensa, traz a história de cerca de 40 mulheres de diferentes épocas, do século 16 até a atualidade. Entre elas, a estilista Zuzu Angel, que lutou contra a ditadura militar; a guerreira negra Dandara; a atriz Leila Diniz, que subverteu a moral e os costumes da sua época; e Maria da Penha, que batizou uma das leis fundamentais dos direitos femininos atuais.

Na apresentação, as autoras comentam sobre a condição da mulher e o feminismo nos dias atuais:

“Cada mulher tem sua parte heroína. Enfrentar os preconceitos que mesmo no século xxi são tão presentes em nossa sociedade, dando conta também de tantos papéis e exigências, é, sem dúvida, prova de força. Prova. Essa palavra que nasce conosco e nunca nos abandona. Parece que temos de provar tudo a todos a todo momento, embora a gente saiba muito bem que ninguém nunca deveria ter de provar nada para garantir direitos iguais e respeito. Mas quem seria sua heroína? Não vale falar da Mulher-Maravilha, Jean Grey, Mulan, Katniss Everdeen, Beatrix Kiddo ou Trinity.

Queremos saber quem é sua heroína de verdade, de carne e osso, aquela que você admira, cuja história conhece, com quem se identifica. Joana d’Arc? Frida Kahlo? Marie Curie? Cleópatra? É fácil citar estrangeiras, mas onde ficam as brasileiras nessa lista? Sua inspiração é uma de nós? Na terceira onda do feminismo — ou quarta ou pós-feminismo, porque só o tempo dirá como ficarão conhecidos os dias atuais —, ainda parece difícil citar nossas guerreiras de ontem e de hoje, aquelas que, como nós, nasceram no Brasil ou decidiram viver aqui. E é por isso que escrevemos este livro.”

Dá para ler mais um trecho do livro aqui.

Outra publicação que vai destacar perfis de mulheres que revolucionaram o mundo deve ser lançada em breve pelo projeto As Minas na História. O livro será publicado em uma parceria com a Gibim Editora.

A foto desse texto são de ilustrações feitas especialmente para o livro Extraordinárias, Mulheres que revolucionaram o Brasil.

Flávia Cunha
Author

Jornalista, formada pela Famecos (PUCRS), e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Apaixonada pela obra de Caio Fernando Abreu, uniu dois interesses e analisou o trabalho do escritor gaúcho como jornalista. Entre suas preferências literárias também estão, entre outros, García Márquez, Ernest Hemingway, Érico Veríssimo, Carol Bensimon e Daniel Galera. Não necessariamente nessa ordem. É fissurada por café e rock n’roll.

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