Estava lendo o livro O Cadete e o capitão: A vida de Jair Bolsonaro no quartel quando soube pelas redes sociais da morte do autor da obra. Luiz Maklouf Carvalho era jornalista e escritor, e trabalhava como repórter do jornal O Estado de São Paulo desde 2016. Morreu com 67 anos, depois de uma longa luta contra um câncer no pulmão. Mesmo antes de saber do ocorrido, eu pensava no trabalho exaustivo que o jornalista teve para chegar ao resultado de seu último livro, ao ter acesso à cópia do processo do julgamento de Bolsonaro no Superior Tribunal Militar, que resultou na ida para a reserva do então jovem capitão. 

O PROCESSO

Bolsonaro foi acusado de participação no planejamento de atentados a bomba, em 1987, como forma de pressionar por melhores salários para oficiais. Luiz Maklouf Carvalho ouviu diversas pessoas envolvidas de alguma forma com o caso antes de publicar a obra. Menos o protagonista da história, que sequer respondeu aos diversos pedidos de entrevista. Como o bom repórter que foi, o autor consegue contextualizar as circunstâncias do incidente que levou ao processo em âmbito militar, além de lembrar aos leitores mais jovens o contexto político da época. O presidente José Sarney governava um país recém-saído de longos anos de ditadura militar. O clima na caserna era de ressentimento não expresso em relação ao governo civil. 

E Bolsonaro aproveitou-se da situação para provocar tumulto. Um ano antes do vazamento do plano dos ataques com bombas, ele escreveu um artigo à revista Veja,  reclamando a respeito das condições salariais no Exército. Uma clara insubordinação à rígida hierarquia militar. Pouco tempo depois, é citado em uma reportagem sobre a ideia dos atentados e acaba processado. 

“SEM MÁGOAS, SEM MÁGOAS”

 A obra de Luiz Maklouf Carvalho vai e volta no tempo para nos mostrar como os incidentes da década de 1980 influenciam na política atual. O autor cita um relato de bastidores antes da entrevista dada pelo então candidato à presidência ao Jornal Nacional em agosto de 2018, aos jornalistas William Bonner e Renata Vasconcellos> 

“O diretor de jornalismo Ali Kamel o conduziu à bancada minutos antes de entrarem no ar, para  que sentisse o ambiente e conhecesse a posição das câmeras, robotizadas. ‘Parece uma mesa para metralhadora’, ele brincou, fazendo o gesto de atirar. ‘Fique certo de que não é’, retrucou Bonner, brincando também.
[…] De repente ele se virou para o diretor de jornalismo Ali Kamel. ‘Ali […], a gente já se cruzou por telefone ali pelos anos de 1988, não?’ Quem viu a cena, conta que Kamel hesitou uns segundos – não esperava a pergunta -, e disse: ‘Sim, sim, eu tinha 25 e era chefe de redação da Veja no Rio.’ Bolsonaro respondeu: ‘Sem mágoas, sem mágoas.’ 
Kamel replicou, na hora: ‘Mágoas? Mas como assim? Foi depois daquela reportagem que o senhor se lançou na vida política!’. Bolsonaro riu, a seu estilo, e emendou: ‘É isso mesmo. Sabe que há uns dez anos eu encontrei num aeroporto a Cassia Maria Rodrigues. Eu não a reconheci, tinha muitos anos que não a via. Mas ela disse: ‘Deputado, sou a Cassia, aquela repórter da Veja que denunciou o senhor’. Eu disse para ela: ‘Que denunciou que nada! Você me catapultou para a política!”
LEITURA NECESSÁRIA

No momento, prossigo a penosa leitura do livro O Cadete e o capitão. Não por ser mal escrito, pelo contrário. O texto é fluido e não é nada entediante. Porém, as imagens mentais que faço do sorriso de escárnio de Bolsonaro durante a pandemia que vivemos me impede de avançar com mais rapidez.

De qualquer forma, aconselho a leitura da obra, lembrando a famosa máxima de Sun Tzu, em A Arte da Guerra:

“Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas.”
TRAJETÓRIA DE LUIZ MAKLOUF CARVALHO

Em 16 de maio, a editora Todavia publicou em suas redes sociais essa nota de pesar:

“A Todavia lamenta profundamente a morte do grande jornalista e escritor Luiz Maklouf Carvalho. Um dos maiores repórteres do Brasil em atividade, Maklouf atuava no jornal Estado de S. Paulo desde janeiro de 2016. Passou pelas redações da Piauí, Veja, Jornal da Tarde, entre outros veículos. Apurador meticuloso e incansável, foi autor de livros e reportagens fundamentais.

Vencedor de dois prêmios Jabuti de livro-reportagem – “Mulheres que foram à luta armada” (Globo) e “Já vi esse filme: Reportagens (e polêmicas) sobre Lula e/ou o PT” (Geração Editorial) – , lançou pela Todavia, no ano passado, seu último livro: “O cadete e o capitão: A vida de Jair Bolsonaro no quartel”, com uma apuração irretocável que revelou fatos controversos da biografia do atual presidente. 

Uma grande perda para o jornalismo e para a cultura brasileira.”

Imagens: Facebook Editora Todavia/Reprodução

 

 

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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