O Brasil muitas vezes me parece imerso no realismo mágico, um movimento literário que tem como principal característica a alternância entre a lucidez e a loucura. Há meses penso se comparar o monumental Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, com o atual momento político brasileiro não seria um desrespeito à memória e ao legado do genial escritor colombiano.

Porém, ao começar a pesquisa para escrever esse texto, deparei com diversas análises de especialistas em literatura que consideram o enredo Cem Anos de Solidão uma grande alegoria à história da América Latina. A repetição e a circularidade temporal seriam então metáforas para a realidade latinoamericana. Mais tranquila, prossegui na escrita dessa coluna.

Para quem ainda não leu esse clássico, a obra mostra a trajetória de sete gerações dos Buendía, com repetições de nome tão frequentes que é preciso estar atento para não se atrapalhar na leitura.  Na comparação que me permitirei fazer aqui sobre a obra de García Márquez e o Brasil, vou ressaltar uma característica dos Buendía: o vício de construir para destruir.

Aureliano Segundo foi um dos que mais fizeram para não se deixar vencer pela ociosidade. […] Para não se chatear, entregou-se à tarefa de consertar as numerosas imperfeições da casa. Apertou dobradiças, lubrificou fechaduras, parafusou aldrabas e nivelou ferrolhos. […] Vendo-o colocar os trincos e desmontar os relógios, Fernanda se perguntou se não estaria também caindo no vício de fazer para desfazer, como o Coronel Aureliano Buendía com os peixinhos de ouro, Amaranta com os botões e a mortalha, José Arcadio Segundo com os pergaminhos e Úrsula com as lembranças.”

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Assim como os Buendia, os políticos brasileiros parecem ter o vício de construir, para destruir e para construir novamente em seguida. Vamos tomar como exemplo as reforma trabalhista e previdenciária

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Alguém duvida que daqui a um tempo surja algum novo governante sugerindo recriar o que hoje está sendo eliminado? E talvez esse político do futuro seja visto como um visionário, alguém que finalmente pensou no futuro dos trabalhadores.

Falando em direitos trabalhistas, um episódio da história real colombiana que foi inserido no enredo é o Massacre das Bananeiras, ocorrido em 1928, quando um número desconhecido de trabalhadores foi morto pela polícia. O motivo, a participação em uma grande greve de funcionários de uma multinacional norte-americana, a United Fruits. Os grevistas foram considerados subversivos e comunistas e, por isso, foram assassinados.

Na versão ficcional, o massacre é esquecido pelos sobreviventes do povoado de Macondo:

A versão oficial, mil vezes repetida e repisada em todo o país por quanto meio de divulgação o Governo encontrou ao seu alcance, terminou por se impor: não houve mortos, os trabalhadores satisfeitos tinham voltado para o seio das suas famílias, e a companhia bananeira suspendia as suas atividades até passar a chuva. A lei marcial. continuava, prevendo que fosse necessário aplicar medidas de emergência para a calamidade pública do aguaceiro interminável, mas a tropa estava aquartelada. Durante o dia, os militares andavam pelas torrentes das ruas, com as calças enroladas na metade da perna, brincando de naufrágio com as crianças. De noite, depois do toque de recolher, derrubavam as portas a coronhadas, arrancavam os suspeitos das camas e os levavam para uma viagem sem regresso. Era ainda a busca e o extermínio dos malfeitores, assassinos, incendiários e revoltosos do Decreto Número Quatro, mas os militares o negavam aos próprios parentes das suas vítimas, que atulhavam os escritórios dos comandantes em busca de notícias. ‘Claro que foi um sonho’, insistiam os oficiais. ‘Em Macondo não aconteceu nada, nem está acontecendo nem acontecerá nunca. É um povoado feliz.’ Assim consumaram o extermínio dos líderes sindicais.”

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Assim como na Macondo de García Márquez, o Brasil atual insiste em ignorar fatos históricos e tentar reescrever a História brasileira.

Não houve ditadura. Não houve tortura. Não houve censura. (Só pra quem mereceu…). Quantas gerações de Buendia brasileiros serão necessárias até o Brasil acordar desse realismo mágico, entre a lucidez e a loucura?

Imagem: Reprodução do quadro A Persistência da Memória, de Salvador Dali

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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