ALERTA: Esse texto aborda a violência contra a mulher, com conteúdo que pode provocar gatilhos emocionais. Além disso, para os leitores que não gostam de spoilers, usei trechos do livro Hibisco Roxo, além de dar detalhes do enredo.   

O caso da mulher que beijou o ex-namorado em pleno tribunal, no interior do Rio Grande do Sul, após ele ter tentado matá-la com cinco tiros ganhou grande repercussão nacional. E o perdão virou-se contra a vítima, com o julgamento nas redes sociais, dentro da não-compreensão do ciclo da violência dentro de um relacionamento abusivo. Por coincidência, quando o assunto veio à tona nessa semana, eu estava terminando a leitura do livro Hibisco Roxo

Na obra, a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie aborda, com muita delicadeza, o tema da violência doméstica, expondo toda a complexidade do assunto. O enredo é narrado pela adolescente Kambili, que aos poucos vai revelando aos leitores o grande segredo de sua família. Seu pai, um próspero empresário e católico fervoroso, exerce um total controle sobre a esposa, o filho e a filha. Ao ser desobedecido ou quando considera que houve algum pecado dentro de sua rígida visão de mundo, Eugene aplica castigos em seus familiares. Os maus-tratos vão sendo intensificados ao longo da narrativa, conforme a situação política da Nigéria vai interferindo na rotina do tão temido Papa.

Quem enfrenta Eugene é sua irmã Ifeoma, uma viúva feminista e professora universitária, que prefere não depender financeiramente do irmão. É na casa dessa tia decidida que Kambili e seu irmão Jaja conseguem, aos poucos, romper o controle emocional (e até mental) exercido pelo pai abusivo. Em determinado ponto da narrativa, a mãe consegue fugir do marido e parece prestes a terminar com o casamento.  Chegando na casa da cunhada, ela explica que sofreu um aborto espontâneo depois de ter sido espancada pelo marido:

– Eu estava grávida de seis semanas.  – Ekwuzinal Não repita isso! – exclamou tia Ifeoma, arregalando os olhos.  – É verdade. Eugene não sabia. Eu ainda não tinha contado a ele, mas é verdade. 
Mama escorregou para o chão. Ficou sentada com as pernas esticadas à frente do corpo. Era uma postura humilhante, mas me abaixei e sentei ao lado dela, com meu ombro tocando o seu. Mama chorou por muito tempo.”

Logo em seguida, a história revela a dependência emocional exercida dentro de relacionamentos abusivos. Quando o marido violento entra em contato por telefone, Beatrice recua na sua atitude de sair de casa:

“Tia Ifeoma atendeu e depois veio dizer a Mama quem tinha sido. – Eu desliguei. Disse a ele que não ia deixar você falar com ele.  Mama pulou do banquinho. – Por quê? Por quê?  – Nwunye m, sente-se agora! – disse tia Ifeoma, irritada.  Mas Mama não se sentou. Ela foi para o quarto de tia Ifeoma e ligou para Papa. O telefone tocou logo depois e eu soube que ele tinha retornado a ligação. Mama saiu do quarto depois de mais ou menos quinze minutos. – Nós vamos amanhã. As crianças e eu – disse ela, olhando para algum ponto acima da cabeça de todos nós. – Vão para onde? – perguntou tia Ifeoma. – Para Enugu. Vamos voltar para casa.” 

E por mais que a cunhada tente argumentar, Beatrice prefere voltar para perto do marido abusador, demonstrando o quanto é difícil romper o ciclo da violência doméstica:

“- Você tem um parafuso solto na cabeça, gbo? Vocês não vão a lugar nenhum.  – Eugene vai vir nos apanhar.  – Escute… Tia Ifeoma falou num tom mais suave; ela deve ter percebido que um tom firme não penetraria no sorriso fixo no rosto de Mama. O olhar de Mama continuava vidrado, mas ela parecia ser outra mulher, não a mesma que saltara do táxi de manhã. Parecia estar possuída por outro demônio. – Fique pelo menos alguns dias, nwunye m, não volte tão cedo. Mama balançou a cabeça. Não havia nenhuma expressão em seu rosto, a não ser um sorriso duro. – Eugene não anda bem disse ela. – Tem tido enxaquecas e febre. Ele carrega mais sobre os ombros do que qualquer homem deveria carregar. Você sabe o que a morte de Ade fez com ele? É demais para uma só pessoa.[…] Você sabia que Eugene paga a mensalidade escolar de mais de cem pessoas? Sabe quantas pessoas estão vivas por causa do seu irmão? – Não é disso que eu estou falando, e você sabe muito bem. […] Sabe quantas mães empurraram suas filhas para ele? Sabe quantas pediram que ele engravidasse suas filhas, sem nem precisar se incomodar em pagar o preço de uma noiva? – E daí? Diga… e daí? retrucou tia Ifeoma, gritando. “

Como podemos perceber no trecho acima, a mulher vítima de violência dentro de um casamento procura encontrar motivos para justificar o comportamento do marido abusivo. É muito difícil para quem está de fora da relação compreender, como podemos notar pela reação da personagem Ifeoma. No caso real da mulher que preferiu perdoar o ex e retomar o relacionamento agora que o homem foi absolvido da tentativa de homicídio, me parece que o mais conveniente seria tentarmos não julgá-la. Se a conhecesse, aconselharia terapia e cautela. Alguém que reage com tamanha violência depois de uma discussão conjugal parece ter dificuldade de controlar a raiva, o que pode ser muito perigoso no futuro.

Infelizmente, esse beijo em público está sendo usado para justificar a violência contra a mulher. E para isso, não pode haver perdão. 
Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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