Há 91 anos, em agosto de 1927, ocorria um dos julgamentos mais injustos da história da justiça norte-americana. Os anarquistas italianos Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti foram condenados à morte, acusados de dois homicídios. Cinquenta anos depois, foi comprovada a inocência dos dois, absolvidos oficialmente pelo governo de Massachusetts.

O processo Sacco & Vanzetti, como ficou mundialmente conhecido, levanta questionamentos que entrelaçam o passado e o presente.

A pena de morte, defendida por muitos no século 21, é mesmo a solução para os problemas de segurança pública no Brasil, com tantas falhas processuais que levam inocentes para a cadeia?

Será que se os réus do julgamento de 1927 não fossem imigrantes e líderes do movimento operário sindical, a opinião pública da época teria apoiado as execuções, mesmo com evidências de que os acusados eram inocentes?

Além disso, por que não se fala sobre o movimento anarquista na grande mídia brasileira, a não ser em operações policiais que tratam os ativistas como criminosos?

Pessoalmente, meu contato inicial com o anarquismo foi singelo. No primeiro livro de memórias de Zelia Gattai, ela lembra de seus descendentes italianos, católicos, por parte de mãe, e anarquistas, na ascedência paterna. No trecho abaixo de Anarquistas Graças a Deus, a escritora recorda uma história familiar, quando seu avô escolhe chamar de Hiena uma de suas tias:

Soubemos então que vovô, anarquista convicto, resolvera dar esse nome à filha visando mais uma afirmação de seus princípios anticlericais. 

Fora ao cartório, lá em Florença, onde a menina havia nascido e onde a família vivia, para registrá-la:

– Que nome quer dar à sua filha? – perguntou o escrivão. – Hiena! – declarou o rebelde. O homem pensou não ter compreendido, perguntou novamente: – Qual é o nome? – Hiena! – repetiu o pai da criança, entusiasmado com a reação do tipo; a polêmica desejada estava garantida.

O escrivão ainda tentou dissuadi-lo, não se conformando com tão estapafúrdia decisão:

– Mas, meu senhor! Como pode dar a uma criança inocente o nome de um animal tão repugnante?

– Se o Papa pode ser Leão, por que minha filha não pode ser Hiena? – revidou o velho Gattai que, na época, pouco mais tinha que trinta anos de idade.

A menina foi registrada com o nome de Hiena e Hiena ficou sendo até morrer.”

Sobre o anarquismo na atualidade, vale ressaltar que a Federação Anarquista Gaúcha lançou há poucos dias uma campanha por democracia direta. Saiba detalhes a respeito da iniciativa aqui.

Para saber mais sobre o anarquismo através dos livros, pedimos ao jornalista e anarquista Rodrigo Jacobus indicar 6 obras fundamentais:

Os Grandes Escritos Anarquistas – organização George Woodcock: Esse é um clássico dos clássicos, bom para quem quer iniciar-se no vasto universo anarquista. Um apanhado histórico abrangente, apresentando as ideias mais essenciais das diferentes correntes.

Organismo Econômico da Revolução – A autogestão na Revolução Espanhola – Diego Abad de Santillán: Com enfoque mais econômico, apresenta práticas e reflexões a partir da experiência aplicada ao longo da Guerra Civil Espanhola. Não é muito conhecido, mas é um livro muito bom sobre o assunto, embora um pouco mais pontual.

Notas sobre o Anarquismo – Noam Chomsky:  Mais contemporâneo, apresenta uma faceta que nem todos conhecem do respeitado acadêmico Noam Chomsky. Dá um respaldo mais formal ao assunto é um tanto quanto “fora da caixa”, já que, de um modo geral, o meio acadêmico é impregnado com o referencial marxista como modelo epistemológico de teoria crítica.

Lutando na Espanha – George Orwell:   O original chama-se Homenagem à Catalunha.  Situado na Guerra Civil Espanhola, é basicamente um relato da experiência de Orwell junto aos milicianos. Um tanto quanto jornalístico, com descrições que são simplesmente fantásticas. Na minha humilde opinião, é melhor que o relato de Hemingway  em Por quem os sinos dobram. Tem um viés mais literário e por isso vale a leitura, apesar de a temática não ser especificamente relacionada ao anarquismo.

Poder e Domínio – Uma Visão Anarquista – Fábio López López –  Livro mais próximo da nossa geração, calcado em reflexões a partir das experiências semelhantes às atuais. Uma baita reflexão com viés mais contemporâneo.

A Desobediência Civil – Henry David Thoreau – Com uma verve bem peculiar, é considerada uma importante referência dentro do ideário anarquista.

 

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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