O título do livro de Marcos Guterman, Nazistas Entre Nós, pode ser usado como um alerta para o episódio do discurso com inspiração nazista envolvendo o agora ex-secretário especial da Cultura. Nazistas já foram tolerados por cidadãos de bem, como aponta a obra do jornalista e historiador que tem como subtítulo A Trajetória dos Oficiais de Hitler Depois da Guerra. Por isso que mesmo com a saída de Roberto Alvim do governo, precisamos estar alertas e ter medo, parafraseando a nova secretária especial da Cultura. Regina Duarte sorri mais e é mais ponderada, pois defende que não haja radicalismos na política. Por outro lado, minimiza as falas racistas, machistas e homofóbicas do presidente da República, o que não deixa de ser uma postura radical em pleno século 21. Com isso, não estou afirmando que a eterna namoradinha do Brasil é nazista, mas uma conservadora que, por temer a esquerda e ter convicção na direita, posiciona-se publicamente dizendo considerar ”doce” o comportamento truculento de Bolsonaro, um “homem dos anos 50”. 

Voltando ao discurso de origem nazista propagado por Alvim, não podemos esquecer dos horrores provocados pelo regime liderado por Adolf Hitler. Na apresentação do livro Nazistas Entre Nós, Marcos Guterman questiona como muitos ex-nazistas ficaram livres após o fim da II Guerra Mundial:   

“O Holocausto – o massacre industrial de milhões de judeus e de integrantes de outras minorias durante a Segunda Guerra Mundial – foi o ponto mais baixo a que a humanidade já chegou em sua história. E foi graças a esse inominável crime que os nazistas ganharam um lugar especial entre os maiores vilões de todos os tempos. Sendo assim, como explicar que muitos desses vilões tenham conseguido, depois da guerra, encontrar um lugar entre nós, isto é, desfrutar da vida em liberdade como se nada tivessem feito, como se fossem parte da mesma sociedade civilizada que eles tanto se esforçaram em destruir? […] Isso só foi possível porque, aos olhos de muita gente, os principais líderes nazistas já haviam sido punidos e a vida tinha de continuar. Afinal, a guerra já era ‘coisa do passado’ – e era no passado que o regime assassino de Adolf Hitler e seus inúmeros cúmplices tinham de ficar.”

A amnésia proposital por parte dos cidadãos de bem a respeito da adesão ao nazismo de muitos oficiais pode nos parecer absurda, mas foi o que de fato ocorreu, como explica Guterman:

“Nesse contexto, o Holocausto passou a ser descrito quase como uma extravagância, fruto unicamente da mente criminosa de Hitler e de seus sequazes próximos, numa tentativa pouco sutil de isentar todos os demais de responsabilidade. Esse conveniente acordo tácito para aplacar consciências permitiu que muitos nazistas reconstruíssem suas biografias depois da guerra e, já reintegrados à sociedade, ajudassem a circunscrever o Holocausto ao cantinho das curiosidades da Segunda Guerra – como se o genocídio dos judeus não tivesse tido a participação de grande parte dos alemães e a colaboração de quase toda a Europa. Estava aberto o caminho para a impunidade de terríveis criminosos de guerra, vergonha da qual o mundo jamais se recuperou.”

Por isso, um (ex)-integrante do governo brasileiro disparar frases nazistas em um vídeo oficial, em pleno 2020, é no mínimo vergonhoso (para não dizer coisa pior). A impunidade para essa situação absurda não pode ser permitida. Principalmente porque a saída dele do governo não foi pelo projeto de aplicar ideais nacionalistas à Arte (uma das características de governos fascistas – vale lembrar) mas pela repercussão negativa ao plagiar trechos do discurso de Goebbels, o famigerado ministro da Propaganda de Hitler. Não houvesse pressão, Bolsonaro certamente teria mantido Alvim no cargo, já que antes havia elogiado sua postura à frente da secretaria.

Um famoso ditado alemão, bastante lembrado nas redes sociais nesses últimos dias, precisa ser compreendida pelos seguidores mais fervorosos de Bolsonaro:

“Se há dez pessoas numa mesa, um nazista chega e se senta, e nenhuma pessoa se levanta, então existem onze nazistas numa mesa.”

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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